sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

As conchas, que eu não sei se são do meu quarto.

Ando sentindo esse lugar  menos como meu,
em algum momento, se perdeu em mim, esse meu jeito de ver o mundo
de escrever as coisas,
de amar as coisas.
Está sendo como um grande amigo meu disse: Minhas palavras se perderam no caminho para a boca.
Eu diria que as minhas não encontram o caminho para as minhas mãos. De surdo. De marcas de lápis escuros.
Afinal, como bem sabem aqueles que me conhecem
Meu som nunca foi reflexo de minha voz
Os sons que saem desses lábios congelados são muito pouco meus.
As letras.
São essas minha voz.
Essas palavras desenhadas
pelas minhas mão sozinhas, guardadas.
Elas que respiram meu ar e cospem meu amor para o que quer que seja esse enorme globo azul.

Há uma concha na minha escrivaninha.
Repito,
Há uma concha branquinha na minha mesinha de vidro.
Eu quase não acredito.
Mas muitas palavras precisam ser repetidas e traduzidas
porque só assim a gente pode se acostumar com a verdade que contêm elas.

Tão quebrantáveis as duas são... Estilhaços. Pequenas poesias caídas em pozinhos no chão.

É bom ter um pedaço do mar no meio do coração da cidade.
É bom andar nas calçadas fechadas e ver um pouco de areia e alguns pedaços de conchas quebradas.
É bom saber que tudo isso um dia foi água.
E que antes de ser água não era nada.

Que as coisas se destroem e se reconstroem.

Essa tristeza desbotada que sustenta meu olhar
nas horas mais geladas
olha agora para essa concha tão amarelada:
Tá tão deslocada...


Mais que lugar esquisito para ela! Não é?

Mesmo assim, todos que passam
também sentem, lá de longe,
uma calma emanar dela.

Essa concha é tão carregada!
As mínimas cores espalhadas:
o alaranjado dos pés, o cinzento do alto, os pingos de vinho claro e o branquinho que destoa pelo seu corpo manchado.
As linhas afiladas fazem seu contorno: do céu ao chão.
Essa concha carrega uma história
e cada traço, cor e forma
que são sustentados por ela
de algum modo,
a suspendem também.
Mantendo-a de pé.
Estável num mundo tão esquisito
que não parece o dela. 


Essa concha, que também guarda uma parte minha...



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Sobre ela.

Eu não a conhecia.
Seu nome nunca chegou aos meus ouvidos
e sua identidade nunca fora tocada pela minha...

O que eu, desconhecidamente, posso sentir de uma acontecimento assim? Será que posso?

Era tarde e o sol ainda não tinha deslizado pelo céu
Era de tarde e o sol ainda brilhava lá de cima.
Mas eu diria que para ela,
o sol já deixara de brilhar há muito tempo.

Ainda temos a quem culpar quando nos tiram
uma amiga,
uma irmã,
uma filha,
podemos reclamar com a injustiça da vida ou até com as ordens de Deus.
Mas não agora,
não dessa vez.

Como um corpo pode querer cair?
Como um corpo pode não querer mais sentir?
Como ele não pode mais estar aqui?

Detesto não ter ganhado uma pista.
Uma única pista.
Para ir correndo abraçá-la
e lhe dizer que o mundo ainda lhe guardava um lugar.

E que a ausência do amor não indica necessariamente sua inexistência,
que ele ainda podia emergir e se tornar mais forte, mais sensível, no meio desse caos depressivo.

Quanta vida havia dentro desse corpo para ele não querer mais viver?

Quantos segundos ele teve para morrer?
E há quanto tempo a morte já não havia circundado por ali?

Eu quase não tenho respostas. Eu quase não tenho certezas.
O mundo me mostrou uma outra face. A face de alguém que se atreveu a não estar mais aqui.
É preciso muita coragem para desistir.
Mas principalmente de si.

Onde está a mágica do mundo?
Perguntam os olhos que mantêm-se na força de procurar.

Mas e aqueles que nem forças mais tem?

Nós somos a mágica do mundo.
Podemos dar sentido a vida, assim como podemos tirá-lo.

Quando sentimos tanta dor, a morte aparece vestida de liberdade.
Quando sentimos tanta dor, deixar de existir é a única respiração que conseguimos dar.
Quando sentimos tanta dor, nenhuma memória é capaz de nos sustentar.
Quando sentimos tanta dor, é latente a escuridão que deixamos de gritar.
Quando sentimos tanta dor, as cores da morte passam a ser mais claras.
Quando sentimos tanta dor, enxergamos a paz por trás da morte.

Como um corpo pode não querer cair?

Num mundo em que não há beleza,
num mundo em que não há justiça,
num mundo em que não há valores,
num mundo em que não há harmonia
num mundo em que não há coração.

É fácil ver essa face do mundo, pois ele faz questão de nos apresentar.
No entanto, meu coração ainda bate, e eu ainda vivo.
Meus olhos ainda se importam.
Minha alma clama pela vida, pela magia e pela transformação.
E minha pele sente latejando as oportunidades que tenho
para afirmar quem sou e melhorar o mundo como posso.

Eu me importo.




























sábado, 7 de novembro de 2015

E de alguma forma, ela deixou de ver o mundo como eu vejo.

E de alguma forma, ela deixou de ver o mundo como eu vejo.
Sinto o som oco das nossas promessas
tão vazias agora
arranharem minha pele como folhas secas.
Tantas folhas, tantas folhas
suspendidas por nós,
a tanto tempo
tanto tempo
em nossos calendários mágicos...
Nossos momentos não podem ser determinados por esse tempo
esse tempo construído para tentar ocupar o vazio da humanidade.
Não, você sabe:
Não cabe em nós o movimento desses ponteiros inexplicáveis.
Somos detentoras de nossos corações singelos
E sabemos, assim como todos aqueles que sentem o amor,
que esse tempo, não pode ser medido, explicado ou justificado por qualquer outro que exista.
Então não venham falar que não existiu tempo para se amar.
Porque, nossos ponteiros são guiados por nossos corações. E há um tempo dentro de cada um de nós.
Inigualável
a qualquer outro existente:
Estamos vivos.
Eles nunca saberão sobre nós.
(E por favor, não faça esse favor para eles...)
Não dê a eles essas risadas grossas que tanto adoram
esses risos frios que só existem por serem movidos por tanta ignorância
que só se formam nas gargantas vazias
e que são incapazes de compreender a profundidade de nosso interior
Essas gargalhadas refletem morbidez
em meus olhos tão estranhos
Não conte sobre nós, eles nunca entenderão
Não faça essa destruição
começar um furo maior em meu peito
como algo que se expande e se funde através do tempo
Por favor, não deixe de dividir essa memória comigo.
Eu não aguentaria carregá-la sozinha. Não agora.
Nossos galhos parecem ossos que gritam.
Sozinhos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O mais lindo, altivo e desastroso poema de Buk: um dos primeiros. *--*

“Eu era a soma de todos os erros: bebia, era preguiçoso, não tinha um deus, ideias, nem me preocupava com política. Eu estava ancorado no nada, uma espécie de não ser. E aceitava isso. Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante; dava muito trabalho. Eu queria mesmo era um espaço sossegado e obscuro para viver a minha solidão”

-B. <3

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

À música que circulou minhas veias, trazendo ar para meu coração.

O som emergiu lenta e profundamente como o sol que nasce por detrás das montanhas. Expandindo-se muito mais longe do aquilo que meu olhar pudia alcançar e do que meu corpo podia sentir. Mesmo assim, por causa da música, meu corpo paralisou. Deixei que o som me adentrasse silenciosamente como um corpo que deixa a água do oceano o preencher, à deriva de ações que não eram suas, mas da natureza que compunha o universo. Só foi quando me senti parte dela, dessa grande natureza, que parei para sentir as transformações que aconteciam naquele momento dentro de mim, fechando o meu corpo em mim, me englobando até o fim, até o momento final em que transcendi tudo aquilo que me compusera minutos antes, até o momento em que me vi transformar em outro e mais novo eu, deixando minha identidade antiga para trás.
São poucos os momentos que você se sente sincronizado com o mundo. Quando olho ao meu redor, me sinto em cada coisa que vejo tão ao mesmo tempo, em que as sinto dentro de mim. O movimento ondular do véu que cobre o prédio em construção-lá fora-, o balanço da toalha branca sobre a mesa-aqui dentro-, conversam silenciosamente comigo. Os tecidos incorporaram a alma das ventanias, e é por meio dela, que se movem.
A escuridão não é mais algo que lhe amedronta, tornou-se -apenas- algo incompreensível. Difícil, e quase estranho de se compreender.
Se torna presente, a falta da noção dos lados internos e externos a você, assim como também desaparece a linha, a ideia e a imagem que te separam do mundo.
Me encontro lá fora.
Me imagino como um dente de leão que flutua pela cidade com meus pés de bailarina. Eu estou feliz e meu corpo balança entregue a essa camada na atmosfera que começa a surgir -não sei como- em meus ouvidos. Pela música que toca.
Nada pode mudar esse momento. Não é possível reconhecer meus sentimentos tristes aqui. Apenas a morte de quem eu fui, minutos atrás. Antes do início da música.
Chegou o momento agora,em que na procura da escuridão e da cegueira, minhas pálpebras -em reverência- começam a se fechar, lentamente. Centenas de explosões acontecem aqui. Pois a porta para toda essa avalanche de sentimentos não está naquilo que meus olhos alcançarão, mas sim, naquele único som que meus ouvidos conseguem ouvir.
E, com toda essa ausência de imagens que a cegueira escolhida me trás, posso ouvir sem entraves, o que a música me faz.
Me dando a vez de sentir aquilo que grita, emerge e salpica dentro de mim.




quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Eu só queria que as risadas preenchessem a noite.

Essa noite, esses dias, eu não sei.

As divisões dos dias e os números no relógio, 
quebraram-se em pequenos cacos de vidro
que voaram por não caberem mais no meu caos.
Não foram para longe, só eles.
Mas o amor que eu expulsei com meus pontapés
aguados por dentro e armados por fora
pela porta.

Não se vê mais palavras em meus olhos
Pois não há terra que aguente 
sem guerra
palavras sem significado.

Não há palavras onde não aja olhos 
de suspensórios para elas.

Como farelos de pão
morrem os morfemas
deitados no piso da minha alma
vazia e cheia de podridão.

















sábado, 24 de outubro de 2015

Minhas reflexões sobre As portas da percepção.

Esse livro, antes de tudo, me conduziu. Ao mesmo tempo, para mim mesma e para o mundo amplo em que permaneço. Tantas reflexões e observações acerca das experiências com a mescalina e seus efeitos alucinógenos me fizeram entender sobre a vida e o ser humano em si, incluindo principalmente suas capacidades mentais.
A mescalina encontrada nos cactos mexicanos, quando ainda era desconhecia pela ciência, já era, desde muito tempo, reconhecida como divina para algumas tribos indígenas que viviam no México e no Sudoeste dos Estados Unidos. E só foi a partir do fim do século XIX, que começaram realmente a estudá-la, analisá-la, entendê-la cientificamente. 
Neste livro, Aldous Huxley conta-nos sua decisão de tornar-se cobaia voluntariamente para a pesquisa, e consequentemente suas primeiras experiências e sensações a respeito dos efeitos da droga.
" Administrada em doses adequadas, ela modifica mais profundamente a qualidade da percepção que qualquer outra droga à disposição da farmacologia, a isso aliando o fato de ser menos tóxica que as demais".
A primeira surpresa que Huxley se deparou foi de como as coisas não aconteceram de forma que ele imaginava que aconteceriam, com expectativas altíssimas imagina ver figuras heroicas, paisagens belas, templos fabulosos, tudo de olhos fechados. Mas não foi nada disso que aconteceu. O que ele entendeu foi a si mesmo, e como cada ser age e reage de maneira diferente no mundo, inclusive perante a droga. Suas estruturas biológicas e suas próprias vivências o faziam ver o universo a partir de sua única maneira. 
O que torna impossível entendermos exatamente o que o outro sente, mesmo que aja uma identificação, não estamos no corpo e na mente dele e não podemos ver através dos seus olhos e sentir pela sua pele,o que podemos fazer é imaginar ou lembrar de uma situação parecida a qual nos ocorreu. E assim, compreende-lo, mas nunca por completo. Em outros casos, a conexão entre os dois universos humanos chega a ser inexistente. 
Assim Huxley afirma que existimos a sós, não importa a época ou o tempo em que vivemos. E que somente indiretamente, por meio dos símbolos, é que podemos transmitir nossas experiências, sensações e vivências ao outro, que poderá guardar informações sobre elas, mas nunca elas mesmas. Pois estas, estão conosco. Pertencendo unicamente a nós, em nosso próprio universo.
Somos como bolhas silenciosas que flutuam a medida que se expandem através do tempo. E às vezes, nos esbarramos, crescendo, e às vezes nos separamos, morrendo. Para depois renascer. A singularidade nos preenche ao mesmo tempo em que fazemos parte de um só único universo que nos engloba e nos envolve, fazendo-se também parte de nós.
"Por sua própria natureza, cada espírito, em sua prisão corpórea, está condenado a sofrer e gozar em solidão[...]"
Se tratava apenas, de outro mundo. 
Aquém desse que vemos com olhos diários e cinzentos, carregados de horários e compromissos importantes e manchados de pressa e estresse.
Além das margens as quais costumamos enxergar, por cima dos túneis infindáveis das preocupações rotineiras. 
Um mundo no qual, não é necessário nenhuma droga para entrar, pois ele está dentro de nós.
Esse mesmo mundo que Huxley e tantos outros já chegaram a sentir, não se encontra debaixo dos olhos fechados, mas naquilo que nossa visão humana é capaz de ver.
Onde a passagem para ele está na extraordinária mudança da percepção dos fatos objetivos.
A começar por flores, mesas, cadeiras, escrivaninhas e depois livros, imagens e calças de flanela, Huxley perde seu olhar antigo e incorpora outro, onde todas as coisas são belas.
A disposição em que os objetos se encontram deixa de importar e o tempo no qual você não está mais imerso se esvai. 
Apagando noções temporais e espaciais seus sentidos intensos te cobrem como uma nuvem mágica. E você passa a ver em cada fragmento da vida, o universo. Como se cada parte fosse completa por si mesma estando inserida no mundo dela. Nas flores e em sua cores, você não só sente o pulsar da vida, mas como também sente a si. Porque você está dentro de cada coisa e elas também estão dentro de você.
"[...] Um perpétuo perecer que era, ao mesmo tempo, puro Existir"
Nessas ocasiões, sua mente é preenchida pela essência e pelo significado das coisas, e sua atenção é voltada apenas para a importância da profundidade em que as coisas se encontram e que têm em si mesmas.
Enquanto ocorre uma despersonalização, como se você deixasse para trás uma parte do ser que era e passasse a focar numa única parte de si, transcendente. 
Essa parte que você deixa para trás, é sua parte funcional, ativa, aquela que realiza e quer realizar ações cotidianas e tarefas inadiáveis durante a semana. Estando apenas com a sua parte contemplativa.
Assim, Huxley entra numa questão: como podemos conciliar o êxtase com a vida? Ou melhor, como podemos viver ao mesmo tempo, a vida contemplativa e a  vida ativa? 
Não podemos. Não inteiramente cada uma delas, mas parte delas.
















sexta-feira, 23 de outubro de 2015

À três anos atrás... quando eu fui embora.

E eu me pego aqui querendo escrever sobre isso, mas tendo que escrever sobre outra coisa.

Esperando que não deixe sair de mim o que mais tenho aqui: essas palavras
que moram em mim...
Meu último desespero é agarrá-las nos braços
deixando meu abraço não deixá-las ir
São elas que me tem.

Mas preciso contar a história direito:
foi uma música que despertou esse sentimento
agudo
confuso
esperneado
e deixou crescer em nós meu pensamento.

Meus pés estão postos na areia que enfrenta o vai e vem das águas familiares e esquisitas.
Fico aqui no balanço entre enfiar meus dedos nessa areia, me mantendo de pé
ou se corro para mergulhar em algo que não é meu, nesse mar de águas tão desesperadamente desconhecidas e assim, tentar escurecê-las com meu nome desmanchado em tinta.

Na dúvida
entre olhar para as portas de uma página em branco
ou cerrar meus olhos para encarar a escuridão que reside  em mim.
Na hesitação
de qual escolha tomar dentre
o medo de enfrentar a estrada deserta novamente
ou sustentar o peso de quem sou

Dói. Dói demais estar em mundo no qual não me respeita e depois que ainda me ensina a não me amar.

Fico aqui pensando nessas facadas no estômago
e tentando não pensar que o melhor é abrir mão.
Tentando não pensar que o melhor é me deixar ir, 
pelo simples fato de não me aguentar mais...

Me representa na dor, a arte que minhas palavras não conseguem ser.
O feto de arte que deixei morrer estacionado em mim.
A muito tempo atrás, a três anos atrás.
e que ainda mantêm a dor pulsante numa reta crescer vazia

Não dá pra se apagar o passado,
não dá pra apagar o momento exato
em que decidi me deixar partir há três anos atrás.

Só da pra viver com essa escolha.
E não me matar mais.






sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Às vezes você entende porque seus sentimentos precisam voar.

No fim do dia, a vontade de dançar sempre ardia.
A sensação inexplicável ao fim dos dias, a qual me devorava por dentro, era a de que meu dia, não poderia terminar daquele jeito. Não cabia a ideia de simplesmente ir pra casa e me despedir do mundo. Não. Era preciso fazer mais alguma coisa.
Uma energia sacudia em meu peito como uma emergência. Eu a escutava quando apenas a minha companhia não fazia sentido para mim. Eu precisa expandir aqueles sentimentos, mas não a qualquer pessoa, gostaria de contá-los por meio dos meus gestos, dos meus pulos, e dos meus olhares, como eu amava o mundo! Como de vez quando essa sensação me atravessa e não bastava guardá-la sozinha. E a ideia de uma boa música por trás disso tudo, seria ao mesmo tempo como uma facilidade e afirmação.
Quando me esgotasse e mais nada meu corpo tivesse a dizer, iria embora. Dessa vez, para casa.
Mas isso nunca acontecia, procurava, procurava, sem me cansar, um alguém com quem fizesse sentido esse balançar.
Ninguém aparecia, os poucos que esbarrei, não estavam no mesmo barco que o meu. Era preciso sintonia, alegria. Eu queria um corpo com saudade da liberdade, queria compartilhar um olhar de amizade.
Mas eu não tinha ninguém, disposto, comigo, e até por perto.
Por várias noites, eu tentei:
Saí com pessoas novas e antigas, recém-conhecidas e amigas, mas nada adiantou, pois tudo o que sentia era o roçar das máscaras em mim, eram corpos que não dançavam a dança que sentiam.
Com o tempo, pude perceber, que as pessoas dificilmente mostravam o que sentiam, e o que transpareciam, na verdade, era o que elas gostariam de estar sentindo,
mas não conseguiam.
Ajudava no disfarce também, além da vontade, a diversidade das drogas que usavam.
Percebia isso ao mesmo tempo em que sentia estar no lugar errado.
Elas faziam isso com naturalidade, como se fizessem todos os dias, fora dos bares e dos shows. A diferença era que a coisa gritava ali.
Uma vontade dentro de mim, tentava não achar tais lugares muito banais, surreais. Enquanto uma sensação horrorosa de deslocamento berrava para mim.
Voltava para casa, sem palavras, sem procurar mais nada. Apenas sentindo, de leve, a mão do vazio acariciando meu rosto. Doía.
A mesma mão, eu sentia balançando a minha respiração abatida de quem estava começando a se acostumar com essa procura demasiada e vã.
Eu queria me expandir também, mas não podia.
Houve um dia, em que quis contar mais, sem precisar da dança ou do corpo, o simples falar ajudaria.
Mas também não havia ninguém.
E a vontade só crescia.
Me sentia completamente sozinha.






sábado, 26 de setembro de 2015

Onde está a essência da humanidade? (Terminado)

O vazio a perfurou.
Tara estava sozinha em casa. Eapenas longe dos seres humanos é que abria as portas para seus sentimentos escorrerem. 
Os sentidos, todos eles, se desfizeram como nós derretidos.
Ela olhava pela janela do seu quarto cheia de sentimentos intraduzíveis, sentimentos que não cabiam mais dentro dela.
Nenhuma música, nenhum som, nenhuma palavra poderia traduzi-la agora.
Mas a pouca racionalidade que ainda restava em sua mente, continuou a procura do que parecia ser inexiste, escondida do resto do corpo. 
Nada se encontrava.
Tudo estava perdido.
O mar? estava tão longe...
O que havia com a sociedade? Pensava ela.
Nem seus próprios pensamentos eram originais e fortes agora, pois todos eles, de um jeito ou de outro, acabavam se esbarrando no meio do caminho com suas fraquezas, sendo influenciados a todo custo pelo medo.
Aquele desgosto humano a encobriu. 
Tara sentia a repulsa de si mesma escorrer pelo seu corpo.
A agonia tomava conta do seu corpo com uma voz própria
e sua consciência se desmanchava no nada.
Como faria ela para se proteger de si mesma?
Não confiava na sua autoconfiança.
Não acreditava na base de suas crenças.
O que realmente está por detrás de todas as palavras soltas nas igrejas, nos livros de auto ajuda, ou nos divãs? Continuou pensando ela.
Tudo se limitava a preencher o vazio humano.
Cobertores do medo e da solidão.
Necessidades.
Pilares de um teto.
O que é um ser humano sem crenças?
Será humano?!
Será que nós só somos humanos quando a vida nos habita? 
Ou as mortes também nos compõem?
Muitas perguntas...
Ultimamente,eram suas únicas visitas.
Se sentia perdida, solta num mar de névoa e escuridão.
Percebia que a fuga dos seres humanos, não estancavam seus sofrimentos.
Como faria para se soltar das amarras que havia, ela mesmo, se prendido?
As correntes não eram palpáveis, estavam emaranhadas num mar de causas e sentidos que ela mesma desconhecia.
 Como desabitar algo que fora, um dia, necessário ser habitado?
Toda a dor a preenchia agora.
Àquelas conversas, aquelas risadas, aquelas pessoas,
nunca chegavam a lugar nenhum.
Os seus corações permaneciam desabitados.
Preenchidos pela ausência de brotos e pelo chão sem raízes.
Não havia nenhum sinal de empatia ali que não fosse falso.
Não cativados, porque não tinham tempo ou vontade para se deixar cativar, eram seus corações.
Os olhos de Tara, nunca haviam se deparado com terras cardiológicas tão secas como aquelas.
Que mundo era esse?!
Onde estavam os sorrisos sinceros,
o risco de mergulhar em alguém desconhecido,
as palavras cheias de sentimentos profundos,
a sinceridade sem propósito,
a compaixão mundana?











sábado, 19 de setembro de 2015

O dia não pode ser uma despedida.

Ficar longe de você, é como ficar longe de mim.
Por isso sinto a distância como um perigo entre nós.
Caso ela se materialize entre nossos corpos tão frágeis, irei me perder de mim.
E um buraco crescerá enorme aqui,
Mas preciso te dizer isso:
Não importa quantas máscaras você escolha ter
ou por quanto tempo elas fiquem com você
um dia, você vai ter que ser você
Nesse dia, você terá que suportar o peso acumulado de ter sido alguém que não queria, mas que sentiu precisar ser.
um dia, os seus medos vão se eerguer
e nenhuma máscara será capaz de te proteger mais,
Eles vão te bater forte, amigo.
E se tornarão muralhas altas demais
Mas até mesmo escolher outro alguém para ser
quando não quer ser o que já é
te faz singular,
porque, afinal ,
algumas máscaras são parecidas
mas nenhum é igual.
E eu desejo ardentemente conhecer todas as suas máscaras
E te proteger quando seu maior inimigo for você
Garanto que quero estar com você até mesmo quando todas as suas cores se despedirem
E eu quero que essas palavras sejam como pontes entre nós
Que esses sentimentos cresçam para andarmos sobre eles
Porque nossa amizade é tão linda, ela não pode morrer

( em construção ~~)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Quando os ponteiros nada dizem sobre o seu tempo

O olhar do relógio me petrifica e seu arrastar me parece infindável.Ignoro os movimentos supérfluos, as vozes diversas e os cheiros dos perfumes imódicos que agora envolvem meu assento nessa manhã nostálgica. Convivo com histórias  ao redor de mim que não me interessam mais. As pessoas murcharam para mim como flores que despencam suas metades de vasos sombrios. As suas quedas lentas trazem uma agonia insegura para a minha esquisita consciência. E ao mesmo tempo me confirmam a lamentável verdade de que todas as coisas estão morrendo. Morrem de espírito aqueles abalados pelas forças enormes das ventanias. Eu sei o que está acontecendo: a vida está com pressa. Meu coração bate acelerado e a solidão quase me queima os pés. Não se passaram mais do que três minutos e todos esses sentimentos decidiram assolar a minha alma: o sentir jamais poderá ser acompanhado ou definido pelos ponteiros do relógio.

domingo, 6 de setembro de 2015

Felicidade repentina no meio da tarde

Estar bem depois de anos de tristeza é como segurar um sorriso no olhar que voa pelo céu
Finalmente se sentir bem é como caminhar com os sonhos indicados pela leveza e simplicidade dos passos 
Felicidade é ficar bem horas a fio com si mesmo. 
É estar sentada na cama vazia mas não sentir falta de ninguém lá.
É estar consigo. Estar em si. 
É sentir que a amizade dos amigos e o amor do amor fazem parte de você como um pedacinho seu.
Saber que a inseparabilidade não está nos corpos agarrados mas no sentir, mesmo separados, alguém com você, ou seja, ter a consciência de que não está sozinho, mesmo fisicamente estando. 
Tenho hoje, fazendo parte de mim, muitas histórias,
histórias que li, história que vivi, histórias que cresci.
Todas as histórias me fazem hoje. Até as que eu não lembro. Histórias de pessoas. 
Rostos, pés, maneiras, passados, sorrisos que não são meus mas os quais fui deixando me fazer.
Tenho guardado a sabedoria de que minha alma está cheia e longa.
Também percorre todo o meu corpo as lembranças fincadas gentilmente e dolorosamente sobre o meu coração
Agora eu as vejo 
Nos us formados entre os meus dedos do pé 
No meu joelho torto e cicatrizado
Em minhas pequenas ações
E nas palavras que saem dos meu lábios 
Que hoje compõem o meu 
mais mutável  eu. 
A vida 
não para 
Fica marcado em mim aqueles que de forma direta ou indireta construíram 
Modificando 
Derrubando 
Criando 
-O que quer que seja- já me compusera antes 
Eu não sou um 
Sou vários em um 
Sou todos os pontos matemáticos que fazem as três restas do número um. 
Possuo na memória
O cabelo de Júlia que acabara de acordar
As explicações curiosas de Carol 
O jeito de colocar o cabelo atrás da orelha de Bárbara 
A voz de Caio 
As fofuras de Rodolfo 
A dança e a alegria de Diana 
Os medos infantis de Mariá 
As brincadeiras com Bruna 
Enfim,
Sou todas aquelas vozes que alçaram 
a profundidade de minhas mornas águas e atravessaram a escuridão do meu mar 
Sou todas aquelas vozes que deixei ancorar dentro do meu lar
Também eu sou,
A montanha que se perde 
para o intemperismo eólico
Mas também sou eu, 
a montanha que recebe das simpáticas ventanias outros grãos
Eu sou essa imensidão 
que sofre transformações 
Sou o oceano
Desconhecido de mim mesmo 
Aquele com muitos segredos 
Sou
Tanto aquelas furiosas ondas quanto aquelas que rastejam de volta para o mar
Aquelas que rastejando, tentam alcançar uma areia intocável, aquela areia fofa que nunca foi lambida e se mantêm seca até hoje
Também sou essa fina camada de onda acabada que muitas vezes não resiste e recua para o lugar que partiu
Sou, mais do que sou, 
o tempo todo. 




sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A cor que pousava sobre meus olhos

Certa vez, estava eu num café - mas não qualquer café, esse, era um dos meus preferidos: nele, sentia toda a suavidade pairando sobre os sorrisos mais simples do mundo, eu podia sentir a  tranquilidade balançando nos vestidos coloridos das moças, ao mesmo tempo em que sentia o reflexo da humildade a caminhar junto aos sapatinhos que entravam pela porta; o café estava longe de ser um desses que apenas os ricos frequentam, logo, a ausência dessas pessoas que murcham a agradabilidade do ambiente com suas cansativas investidas de exibição social, anunciado suas chegadas com sorrisos igualmente gelados, barulhos de salto alto e jóias balançando, tão acompanhados da falsa cordialidade, era formidável.
  Não era propriamente a soma desses fatos que me deixavam mais à vontade no café, mas principalmente, todas as paredes vinho avermelhadas serem cercadas por quadros fotográficos  de cor preta e branca. Minha semelhança com essas figuras incolores era maior do que com as pessoas de carne e osso ao meu redor. Chegava até a achar que a imagem dessas pessoas já mortas, exalavam mais vida no balanço dos seus traços - capturados pela câmera - do que muitas outras que meu corpo chegara a conviver até então. Seus olhares não evasivos, alcançavam minha alma e seus gestos cheios de carinho antigo me convidavam para sermos amigos. Me via pertencendo àquelas pessoas principalmente porque nossos limites de relações humanas eram meras observações diárias. Sentia em cada milímetro de meu corpo que aquelas pessoas me entendiam, e que eu estava presa ao mundo delas, mesmo estando fisicamente fora dele.     
As vezes, podia ver o presente nos quadros acontecendo. Podia ver seus movimentos antes e depois do clique fotográfico, podia ver o tempo transcorrendo pelos momentos de suas vidas já terminadas - quando ouvi uma mulher sentada na mesa 11, a qual devia ter a mesma idade que a minha, dizendo para uma moça, que a julgar pela aparência, provavelmente devia ser sua filha: Não acredito! Essa cara de novo? O que que é difícil na sua vida? Vamos, me diga! Você não precisa fazer nada, não precisa trabalhar, nem pagar as contas, sua única obrigação é estudar! Isso é preguiça e muita má vontade. Não me venha com explicações mal feitas. 
Quando ouvi essa fala, imediatamente fui reportada para uma lembrança de meus tempos no colégio: era um dia claro, e eu não sabia quem queria ser. Não profissionalmente, pessoalmente. Só estava ruminando(tentando aceitar) a ideia de que precisava ir a escola, quando tudo que precisava era ver o mar para ir em busca de respostas que não existiam em livros didáticos ou nos professores obcecados pelo vestibular. Tudo que precisava era transformar aquela nuvem de negror estacionada em minha mente, carregada de problemas, e joga-la onde o vai-e-vem das águas pudesse lavar. E assim toda a escuridão escorreria para misturar-se com o azul do mar. 
Tudo que precisava era parar de chover. Queria escutar minhas aflições encharcadas de interrogações e não ter que guarda-las mornas numa pequena caixinha para ir a escola.
 Além disso, tinha o uniforme. Não podia escolher as roupas escuras nem as frases que iam ficar estampadas sobre mim. Meus pincéis foram presos pelas normas da escola. 
Foi quando, caminhando mais morta do que viva, para ir ao banheiro escovar os dentes antes de partir, surgiu uma ideia. Eu, que nunca usava maquiagem, contornei meus olhos com a escuridão do lápis de olho emprestado da minha mãe. Aquela era a forma de libertar meus gritos sufocados pelas exigências rigorosas do dia a dia. Aquele lápis, virou o meu pincel corporal. E eu, mais quadro meu, do que de museu, fiquei exatamente com a cor que precisava estar. Sem vedações. 
Quando cheguei na escola, o mundo inteiro estranhou. Mas eu não, a diferença não era muita para mim, podia até ser para elas a primeira vez que me viam assim, contudo, tal escuridão já virara familiar em mim. Sem ninguém perceber, a infinitude negra já apertava minha minha alma solitária há meses. Agora, seu nome só mudara de oculta para explícita.
Num instante, estava de volta ao café, pensando na quantidade de coisas que aquela mãe ignorava sobre a sua filha. Ela esquecia que normalmente regiam a mente passagens, transformações e conflitos internos. E que, não é apenas por ser de menor que o motivo da tristeza é descartável, insignificante, banal. Pensei que talvez, se ela tentasse entender a forma como sua filha via o mundo e aqueles pensamentos que compunham sua personalidade, invés de apenas reclamar das obrigações não feitas, seria melhor. 
Tentei jogar um olhar compreensivo e um sorriso de quem entende para o rosto impaciente e decepcionado da garota. Quando ela viu, seu semblante primeiro estranhou, depois me olhou sério, até que pude ver o movimentos dos lábios para o lado fazendo brotar as primeiras sementes de um -quem sabe-futuro sorriso. 
Acho que ela entendeu que eu a compreendia, pensei levantando para ir embora. 
Sai do café com a sensação de uma cor preta se formando sobre minhas pálpebras e com a mente ainda nas fotografias penduradas. 

sábado, 8 de agosto de 2015

Jockey Club

Hoje foi um tarde linda. A liberdade azul dançou sob meus pés. Eu me senti viva. Amada pela terra que afagava meus passos. O momento finalmente virou uma corrente marítima independe de minhas prisões, e me levou junto com ele.
Como um tapete mágico sendo carregado pelo vento, eu fui... Viajei nas imensas satisfações que um dia é capaz de nos dar.
A vida não passava de sapatinhos coloridos e o céu pela primeira vez não se cansou de si. Permaneceu agarrado com a vivacidade do seu tom azul cru. Permaneceu...Permaneceu pelo verão, quando minhas agonias borbulhavam-me, permaneceu pelo outono, quando de mim, despencaram suavemente os meus melhores medo, permaneceu pela primavera , quando nasceu em mim despercebido um desejo de vestir alegria, e permaneceu, também, evitando que o inverno chegasse a minha alma.
O sol. Oh! Grande Sol... Cobriu com seus fúlgidos raios as sombras que abarcavam minhas tardes. Clareiou-me. Me deixo mais dentro de mim.
Seu conjunto de lâminas brancas derramadas sobre o céu, acalmavam minhas perplexidades diante o mundo cruel.
E cada invisível fio caído douradamente sobre mim, desmanchava as penumbras atracadas em meu coração.
Essa cortina de sol em meu rosto entregou-me trangulidade, força e paz.
A vida se anunciava pelo balançar dos capins esverdeados. 
Eu podia sentir a velocidade preenchendo os espaços em brancos da atmosfera, enquanto as patas amassavam a areia bronzeada e as crinas exalavam uma beleza pura.
A vida se encontrava na fugacidade daqueles páreos. 
Das corridas, transpirava a liberdade de ser. 
Os cavalos quase voavam. 
O som dos galopes traduziam unicamente existência.
Enquanto o dia escurecia, "uma brisa fresca vestia o céu de um azul vibrante"* 
Por último, sobre a atmosfera e meu coração, pairava a felicidade suculenta do fim da tarde.  


* Záfon, A sombra do vento. Pg. 164
 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Meia salamandra

Apesar do texto não passar de uma mera tentativa, é de minha ciência que essas palavras hão de sempre permanecer aqui, dentro de mim. Cada dor será desdobrada nesse papel. E se fosse de minha escolha, tais linhas não existiriam. Mas acredito com carinho que, de alguma forma, elas fazem parte de mim. Mais do que como um código de barras, como uma construção. Bem, é provável que fique retornando aqui, para acrescentar novas frases na medida em que minha mente for conseguindo dissolvê-las, de modo que esse texto nunca estará terminado. 

Na nossa história, pai, eu só via esse silêncio ensurdecedor, essas portas despedaçadas no meio, a poeira no chão da casa, e a escuridão infinita que servia como cobertor para o restante das paredes. Mas a existência de algumas cores, pálidas, são reais, não são?
Construí meu cais sozinha, para firmar as margens de nosso relacionamento. Parar criar um limite que a minha vida toda permaneceu impalpável. Para dar fim a fluidez das linhas que me separavam de ti. Durante anos, tentei construí essas muralhas entre nós, sem saber ao certo se as queria prontas, sem saber ao certo se queria finalizá-las, sempre deixando um espaço em branco a ser preenchido por você, que agora pode ser chamado (unicamente) de esperança vã, isso foi um erro. Deixar esses espaços vazios na época só me abriu ainda mais para o seu alcance, para a destruição que sua voz fazia quando tocava em mim. Deixar esses espaços vazios como portas abertas por pura esperança foi um erro demasiado.
Hoje, essas paredes estão finalizadas. E elas me protegem agora, apesar de ainda terem essas marcas dá maré friamente forte.
Hoje, as muralhas estão prontas. E a distância entre nós concretizada.
Eu não queria muitas coisas, uma pausa para me esperar enquanto corríamos na beira do mar, uma pergunta sincera sobre mim, menos silêncio e mais conversas, a aniquilação da fúria descontrolada em troca da fé calma de uma diálogo, uma camisa emprestada e não roubada para dormir no inverno, mais amor e menos guerra, a presença em troca da ausência perene.
Mas eu não sou uma dessas crianças que nunca conheceram seus pais, talvez essa teria sido uma história melhor para nós. Eu te conheci, pai. O pouco que você me permitiu. Hoje tenho em mente a visão da inexistência dessas cicatrizes se você não tivesse ficado por aí. Um corpo sem marcas profundas. Noites inteiras sem urros de dor a serem abafados pelo travesseiro.
Mas até mesmo essas cicatrizes podem ser cobertas por roupas e máscaras. O que não consigo escrever aqui é do que resultou quando nossos universos realmente se confrontaram. Apenas foi mencionada a exterioridade desse desastre de consequências. Não posso falar sobre as coisas fincadas em minha memória, em meu corpo, em minha personalidade. Não consigo falar dos pingos embrulhados que me firmaram, ou das pincelas que mediam minhas ações até hoje. Não posso falar da parte que é sua em meu timão.
Não consigo falar da distorção da imagem sobre mim mesma que você deixou, que você acrescentou a cada palavra cuspida, com seus gritos e gestos descontrolados. Não consigo falar dos medos que me dominam quando as pessoas esperam algo de mim. Não consigo falar da injustiça que sinto quando alguém cobra algo de mim. Não consigo falar do medo da decepção. Assim como não consigo falar dos resquícios desconhecidos e das ameaças deixadas até então.
Obrigada por me dar medos e não me ajudar a solta-los.
Pai, agora você não pode mais me destruir. Eu estou grande.
Nenhuma âncora vai ser jogada por sua causa mais.
Sabe aquela determinação brilhante no olhar? Ela ainda está aqui.
E meus lábios continuam firmemente fechados, estampando o orgulho que sempre esteve comigo durante seus ataques.
Meu nome não é teto para suas vontades, e meu sangue não é permissão para suas atuações.
Meus ouvidos não são obrigados a escutar, e minhas costas podem se virar, sim!
Nas passagens para minhas terras serão colocadas esfinges impetuosas
E nos calabouços do meu castelo só serão permitidas sombras de objetos inanimados.
Seus incêndios serão apagados pelas minhas ondas e nenhuma fumaça chegará aos céus.
Você nunca quis saber minha música preferida, Pai.
Você nunca quis saber porque minha cor preferida era verde, Pai.
Você nunca quis saber porque eu gostava de ler tanto, Pai.
Você nunca me perguntou porque eu escolhi filosofia, Pai.
Você nunca quis saber nada sobre mim.
Minha imagem já estava feita em sua mente antes mesmo de eu nascer, e enquanto eu não fui alguém, enquanto era apenas um bebê, você verdadeiramente me amou, por saber que eu era exatamente do jeito que você queria. Mas você nunca me deu espaço para conhecer quem me tornei. Seus julgamentos sempre foram tampões para esse caminho.
Eu não sei mais discernir a ordem do que aconteceu conosco.
Minha independência te assustava?
Você me assustou quando exigiu duramente meu amor por você. Você tinha medo, Pai? E porque demonstrava tanta raiva?
Depois tudo piorou. E melhorou algumas vezes.
Suas tentativas de roubar meus sorrisos,
suas respostas amarguradas,
seu tom de voz transbordando repúdio,
sua capa fria,
me fizeram desistir, Pai.
Mas ainda não sei porque tanto ódio,
Será que porque era feliz mesmo não estando no caminho que você planejou para mim?
Nossos diminutos contatos não me faziam bem, não lembro a última vez que fizeram.
É por isso que decidi sumir, Pai. Suas pisadas eram muito fortes. 
Foi assim esse mês, e será nos seguintes.
Sem despedidas.
E sinceramente, não estranho que esteja sendo como sempre foi.
Eu, sem você.
Bem vindo ao conjunto dessas pessoas as quais eu não preciso.





















































quarta-feira, 29 de julho de 2015

A liberdade do inverno

Soa estranho em meus ouvidos a imagem desses dias líquidos. Como o mundo pode está nitidamente chorando? Essa chuva eu só sentia dentro de mim. Lá fora, os dias sempre foram mascarados de sol. Onde está o disfarce da dor do mundo agora? Esbarra em mim toda essa realidade esquisita. No verão, os raros dias chuvosos, tão ansiados por mim, eram únicos. Neles, eu me sentia parte do mundo.
A muito tempo atrás fui integrante desse palco de sorrisos, ainda que não completamente, dessa constante afirmação de que estamos bem. Lembro que fingia, ainda quando era criança, para me proteger. Usava a alegria como uma capa de chuva para não espalhar tristeza, e talvez, por ainda não saber lidar com ela.
Sei que não completamente porque na escola, subia numa árvore temida e despercebida por todos, não somente pela altura, mas principalmente pelo seu reflexo sombrio. Sentia certa empatia naquela estrutura excêntrica e asquerosa ao mesmo tempo. Lá em cima, a separação entre mim e os humanos, me curava. Eu não precisava mais fingir que o sangue não escorria. Eu não precisava fingir que não chovia. Eu podia ver através dos muros da escola, e meus olhos brilhavam. Certa vez vi um velhinho atravessando a rua, e ele notou meus olhinhos erguidos junto ao restante de minha cabeça acima da beirada do muro, lembro que ele piscou para mim, e eu de volta, mostrei o melhor sorriso que tinha escondido no olhar. Pronto, aquele era o nosso segredo. A imaginação floria e as minhas máscaras sucumbiam. Conversava com fadinhas e lagartas, habitantes da minha morada. Não me lembro de ir embora de lá. Nenhuma vez.
Será que todos tinham um esconderijo secreto como minha árvore também?
Um lugar onde fosse mais que permitido a própria essência?
Um lugar para lidar com toda a dor sozinhos?Hoje, sei que não se trata de afirmar nada, os rostos estão rodeados de negações. Enquanto negam para o mundo, também negam para si. Vibra nos corpos a necessidade de apresentar uma vida perfeita. Afinal, para que serve os símbolos? Os carros, as profissões estimadas, o dinheiro. *Essa mão invisível que trabalha controlando-nos, mesmo que a empurramos, ultrapassando nossos limites de dor.*A felicidade é quase uma obrigação, e a tristeza é sinônimo de fraqueza. O que é realmente ser feliz?
A felicidade não abarca para mim um verbo constante, nós não somos felizes. Nós estamos felizes. Ela vai, e volta numa parábola perfeitamente saudável ao longo de nossas vidas. Tal como o balanço de todos os outros sentimentos que afloram e morrem dentro de nós.
Por isso, e por outros motivos, permito a transparência me fazer uma visita as vezes, e é então que encaro os olhos surpresos mostrando estar exatamente do jeito que estou. Assim como aqueles sujeitos que não possuem mais força para abotoar o disfarce. Ambos deixamos o sentimento transbordar. Entretanto, os nossos componentes diferem, esses sujeitos fazem isso porque já foram abordados demais pela vida, a vida que lhes arrancou quase todas as cores, a vida que lhes tirou vida. Mas eu não, dominam-me a raiva e a indiferença às opiniões. É o que estou sentindo agora e pronto. Nada mais. Por que não podemos ser estranhos?
* Parafraseando Elliot, personagem da série Mr. Robot.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Carlos Ruiz Zafón

Devido a minha própria incapacidade de escrever um texto único e singular sobre as fabulosas histórias desse escritor, por motivos de pequenez; pois o que sinto por elas é muito maior do que aquilo que conseguiria dissertar; e por motivos de não ter lido todas as obras -ainda-, me conterei aos pequeninos textos que fiz, específicos de cada livro já lido. Mas sabendo, desde já, que tudo isso, provavelmente não passará de um erro, conforme a impossibilidade de transpor as palavras de meu coração para o papel amigo, como disse anteriormente, um erro que provavelmente acarretará em grandes limites inexistentes, e em grandes insuficiências descritas.
Pois bem, o que posso dizer, até agora, é sobre uma leve sensação de transbordamento ao levar a lembrança dessas histórias a minha consciência desvanecida; como uma alga marinha recém-nascida que cresce olhando para as metamorfoses do céu, que cresce olhando para as incontáveis faixas lambidas de ouro deixadas pelo sol longínquo, (faixas que penetravam dois mundos dançando com uma suavidade espantosa), ao mesmo tempo em que sente todo aquele universo aguado lhe preencher; dominada pela paz da imagem que lhe envolve lá de cima, lá de tão longe, mas sentida fortemente pelos seus olhos.
Eu sou essa alga marinha, e a paisagem que vejo de tão longe, a sentindo tão de perto, são as páginas dos seus livros. E a sensação transbordante é só um reflexo de tudo isso.

MARINA. Primeiro livro lido, meu, sem dúvidas, preferido.
Záfon abriu meu coração assim como ventanias abrem portas: num só galope. Depois que li Marina pelos lugares que viajei, fui sentindo impressionada o impacto assustador que esse livro me causou. E só agora me dou conta de que não consigo tirá-lo da cabeça - não somente apenas o término, mas também, enquanto meus olhos perpassavam aquelas linhas escritas pelas suas mãos -. Na medida em que ia lendo desde o primeiro parágrafo até o último, tive a dura e leve sensação de ver meu coração se abrindo e cada palavra cair em direção a um lugar secreto que há muito tempo eu havia transformado em desconhecido dentro de mim. Esse lugar embarca pavores misteriosos, sem rédeas, incontroláveis. Talvez por isso sentira a destruição dolorosa chegar enquanto terminava aquelas últimas páginas do livro... As imagens emergiam lentamente diante dos meus olhos enquanto minha boca engolia aquelas letras. E meus olhos jamais haviam visto tamanha agonia.
Me senti destroçada, arrepiada, perdida. O chão construído pelas minhas mãos desabou. Esse mesmo que havia criado para me esconder dos pensamentos que perambulavam minha mente inquieta. E um terror mágico me inundou... Pude sentir, a flor da pele, a dor da humanidade, a dor de histórias que já foram esquecidas e talvez nunca lidas por alguém, além de quem as viveu. Marina é incrível, é real, é doloroso. E ao mesmo tempo encharcado de uma beleza fantasmagórica inabalável.

O PRÍNCIPE DA NÉVOA.
Terminei de ler o Príncipe da Névoa e novamente, senti aquelas frases grudarem em minha pele. Cada palavra parecia derramar um vapor de tinta em mim, o qual denominarei de tristeza e paralisia. Quase uma resignação inevitável. Ao chegar em casa, tomei um banho, na esperança de que aquelas correntes incessantes de água levassem consigo as frases coladas em meu corpo, relutei. Mas as frases permaneceram sólidas aqui, até agora. E sinto que vão permanecer, pairando-me, por um longo longo longo tempo. Um tempo insustentável. Acredito que a história se trata, sobretudo, de amor. De um amor inimaginável, mágico. Sei bem que todos nós já o sentimos, sem perceber, mas o deixamos escapar, por motivos tão incompreensíveis quanto internos. Fala também, sobre o perdão, sobre a força de se manter vivo, sobre o entendimento mágico, invisível, e silencioso que podemos ter com alguém, e sobre proteção. Se não me engano, quase todos esses sentimentos, são sustentados unicamente, por esse verbo: amar. Qual como no livro, na vida real.




terça-feira, 21 de julho de 2015

Uma manhã nervosa.

Quando botei os pés para fora do retângulo restrito, meus olhos doeram. A luminosidade fria do dia e os movimentos rápidos dos automóveis na avenida me atacaram de repente. Foi como se tivesse dormido esse tempo todo, essa manhã toda. Dormi no mundo das almas mortas. Olhos indiferentes se espalhavam pelas salas curtas, subindo as paredes geladas  e percorrendo os vértices de todos os lugares: saias, ombros de cadeiras, omoplatas, calçados, fichas sem sentido. E eu, com meus olhos de jabuticaba, tão frenéticos e opondo-se ao que restava de mim, ficava torcendo para ver os traços dos lábios daquela moça esboçarem um diminuto sorriso. Um sorriso que eu nunca via. "Perguntei-me como era possível sentir alguém tão distante e, no entanto, poder ler cada dobra de seus lábios"*Podia ver os rostos daquelas pessoas completamente, mas sabia que nunca veria um sorriso em seus lábios em inúmeros deles. Como pode se conhecer um rosto sem essa expressão tardia? Então, uma ideia emergiu de dentro da canastra de meus pensamentos... Talvez eles não quisessem ser conhecidos, talvez eles nem quisessem estar ali, talvez sejam mais máquinas com um único objetivo do que humanos, exatamente. E foi por isso que decidi jogar, no ângulo reto, do canto daquela saleta, as minhas aspirações para espionar. Logo depois disso, devo ter caído num sono profundo, numa paralisia incomum, quando a vida perde o gosto e todas as coisas o seu sabor. Estava no ponto máximo da ausência de graça. E deve ter sido por isso, depois de ter passado aquelas horas das quais nada me lembro mais, que tomei um susto sufocante ao vazar daquele lugar sombrio. Foi como esbarrar numa parede invisível, não uma que todos poderiam sentir ou tocar, uma barreira psicológica, como um choque de vivacidade após tantas mortes, demorei para engolir cada imagem que via e sentia. E o mundo me provou que ainda estava nebulosamente vivo.
Foi no caminho vagaroso para casa, que me resguardei dentro da minha concha azul, imersa em mim, a medida que meus pés pisoteavam, sem querer, nas poças das ruas de barro. E tudo parecia estranhamente normal, quando senti os olhos do ônibus, daquelas pessoas de passagem; foi uma entrada terrivelmente assustadora, e brusca, pois estava completamente muito longe dali, muito longe daquela janela chuvosa e daqueles degraus rachados. Odiei decifrá-los. Odiei esbarrar com os olhares sentados no ônibus. Odiei esbarrar com suas emoções penetrantes. E de alguma forma, eles estremeciam as águas planas de minha alma, causando perturbações no meu comportamento longínquo. Eu queria aquele tempo minúsculo para mim.
Havia uma garota. E ela me olhava de um jeito torto enquanto eu mantinha o olhar na altura dos seus, tentando não andar para trás. Enquanto tentei lhe dizer sobre o véu de frieza que a cobria, "você é só uma criança, todos nós somos, não precisa dessa morbidez. Não precisa me esnobar para se proteger. Você é uma criança, não devia passar por tantas coisas, nem lidar dessa forma com elas. O que aconteceu com você? Não devia achar que precisa dessa capa roxa que apodrece a alegria que há aí dentro, menina"
Entretanto, sei bem, que dificilmente meu olhar a alcançou, somente palavras seriam capazes de fazê-lo, e elas não estavam caminhando comigo nesse fim de manhã. Meu rosto fechado impedia que abrissem minhas portas, eu mantinha o controle do meu organismo vivo sob o céu cinza, voltando para casa.


*Záfon, A sombra do vento. Pág 144.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Isso não é uma poema, é só mais um dia pintado de branco pelas mãos do vazio.

E se todo amor for pouco? 
E se as ondas foram demais para o chão de areia? 
E se o eco for maior que o abismo?
E se a ausência for maior do que presença sentida?
Por longos dias senti esse vazio me preencher, sentia falta de tudo. 
De uma voz, de um segredo, de um olhar compreensivo, de uma dezena de dedos ao lado dos meus, de um braço pra segurar atravessando a rua, de uma madrugada não solitária, de uma companhia pra tudo, quase como uma irmã que nunca tive. 
Precisava me sentir parte desse mundo novamente, e sozinha sei que não conseguiria isso. Mas ao mesmo tempo sentia o medo que me prendia, o medo que me impedia. Mas eu mesma o alimentava todas manhãs, como um cão de estimação, não deixando ninguém se aproximar, afinal, já haviam machucados demais. Era o meu cão que protegia os meus machucados, e o nome dele era Medo. E nem cicatrizados os cortes estavam, o sangue escorria todas as noites embaixo das estrelas. Das brilhantes estrelas inalcançáveis. Será que um dia chegaria lá em cima? pensava eu, como uma grande fã de As crônicas de Nárnia, onde as pessoas já velhas demais tornam-se estrelas no céu absoluto. Com os olhinhos meio juntos, próximos da testa, e a cabeça torta virada para os céus. 
Por muito tempo senti essa ausência rachando meu céu, por muito tempo vi ondas agarrarem a distância, e prendê-la ali, longe de mim. A distância enorme que me separava da vida,ou melhor, do que era vivo. 
E a saudade do desconhecido percorria em minhas veias como a água da chuva corre pelas ruas arenosas. 
E o meu sangue jorrava para fora de mim  escorrendo e se desmanchando como as lágrimas do céu caiam lentamente pela minha janela 
Mas isso foi a muito tempo atrás, a muito tempo atrás...
Pelo menos eu pensei que havia sido, até sentir uma alfinetada dela hoje, dessa ausência repentina que me toca de forma lenta com a ponta de seus dedos frios.A solidão que aperta meu peito e me sufoca. 
Será mesmo que sua presença não foi suficiente? Pois foi com a sua jangada que os dias clarearam. Somente depois da sua voz e do seu amor, a quem abri a porta vagarosamente para adentrar, é que me senti cheia.
Então, o que está acontecendo,amor? 
Por que a corrente fria do mar me atingiu novamente hoje? 
Por que senti a falta da vida hoje?
Eu me lembro quando 
Você apareceu e jorrou em mim todos esses lenços coloridos, esfumando os vapores verdes,amarelos,vermelhos e azuis a minha volta, em minha borda, dentro de mim. E foi como se tudo tivesse se enxugado.
Eu me sentia curada

Mas e agora? 
O que aconteceu? 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

4:48 A.M

Hoje, dormi na praia.
Tomei um banho de mar.
e me afoguei na fumaça que penetrava meus pulmões.
Quando cheguei em casa,
parei diante desse retângulo que me dá luz, e observei, escrevendo isto aqui:


A cidade dorme.
As ruas estão densas
pelo profundo silêncio que se desmancha sob elas.
Os galhos balançam frios e suavemente me provando que o mundo,
não morreu.


Enquanto o vento frio esboça meu rosto, os pássaros cantam sutilmente para as calçadas vazias.
E o fim do céu pintado de azul bebê recebe ainda pequenos pontinhos estrelados
ao mesmo tempo em que
o seu início, permanece amarelado
abordado pelos primeiros passos dos sol.


A janela domou meus olhos tão penetráveis
Mas meu corpo se sente distante
pois ainda carrega o mar em seu peito


Eu não te deixei, Mar.
Te trouxe junto a mim.
Seu cheiro ainda está em meus cabelos salgados,
e sua areia ainda ama minha pele peguenta.


O incrível se mostra aos meus olhos
quando vejo que a imagem a pouco descrita
está mudando,
no tempo do balanço dos meus cílios.


Como é rápido o amanhecer...


Daí,
Todo o cenário já não pode mais ser sentido da mesma forma.
Tudo passa a ter um novo aspecto, cada vez menos espectral.
Por causa do dia, que está crescendo.





















NA PRAIA

Nasce as luzes do dia que velam o grande mar
Enquanto as coisas morrem dentro de mim
Ando alguns passos enterrando meus pequeninos dedos na areia da praia
E sinto minhas mãos pegajosas pelo sabor das ondas ...

Vejo o medo configurar-se como um braço estendido a minha frente...
E as ondas balançam como meus cabelos: cheirando a beirada de uma liberdade almejada
Sinto o azul do céu escorrer e cair feito pétalas sob meu corpo frio
Vou sendo vestida lentamente por essas águas que começam por tocar meus pés
E a nudez evapora suavemente de mim
Enquanto uma energia salpicada estende-se não só pelos meus braços e pernas mas pelo meu
Grande
Insensível
Branco
E vazio
coração
A violência é anunciada pelos movimentos virulentos do mar
E o cheiro de suspense estanca no ar
É a minha deixa?

sábado, 11 de julho de 2015

Findam-se os dias, então.

Um passado não tão distante me cerca hoje, com os olhos voltados para trás ainda posso sentir a dor como lembrança desses tortuosos dias. Sempre foi difícil escrever sobre essas águas, ainda mais quando me encontrava sob elas. E talvez essa seja a primeira vez que largo essas sílabas nesta folha em branco, consciente do meu ato. Entretanto, faço isso coberta por um medo que formiga meus fins: a pontas dos meus dedos, de todos eles. O medo de reviver seriamente o que me aconteceu. O medo de mergulhar numa profundidade nebulosa e aturdida demais para mim, mesmo sendo minha. O medo de adentrar um passado e não conseguir mais sair dele.
Ainda me resta algumas dúvidas de como fui parar ali. Será que errei as coordenadas por dar tanta atenção ao horizonte? Ou simplesmente fui pega por um redemoinho inexorável? Vítima ou protagonista?
Talvez os dois demais. Uma série de ondas me atingiu, ondas que jamais foram ou serão profundamente iguais a quaisquer outras, porque todas são individualmente assim, únicas. Tanto para o mar quando para o marinheiro.
Mas não foi tão rápido tue tudo aconteceu, não é que nem as dificuldades breves dos personagens dos filmes ou livros infantis, não é que vá aparecer um solução no final. O momento durou mais. O caos por baixo dos gritos e alarmes procede-se lentamente. Até o ponto em que você não sabe mais se deve imaginar um fim. Exceto o seu.
Sempre pensei nesse específico momento: a morte. Mas hoje decidi cortar as digressões e guarda-las para um outro texto, quem sabe, um tanto menos cheio. Portanto, indo direto àquelas perguntas que me visitam por vezes:
Qual foi o último pensamento de um suicida?
Quais foram as últimas palavras pensadas por uma mente que sabe que não vai mais existir em poucos minutos?
Quais são os últimos pensamentos de um ser que sabe estar a beira do abismo eterno?
Eles aceitam?
Ou simplesmente morrem com uma súplica de vida nos olhos?
Ou simplesmente morrem com a esperança repousada nos lábios?
Nesses dias fechados meus, pelo menos sei dizer que houveram pausas. Poucas, mas sim.
Pausas incríveis e inacessíveis. Cobertas de silêncio atingindo a minha não sólida alma.
Como pequeninas gotas de chuva em um chão rachado pelo deserto vazio.
Como ver o mar.
Na brecha de uma solidão imensa.
E a chegada do fim das pausas, me torpecia.
Eu sabia, acontecia rapidamente.
Como um relâmpago nos céus. Não precisava de muita coisa pra acontecer.
Meu coração em pânico, batia forte. Logo, meus pensamentos ficavam embrulhados. Eu não sabia como parar. Como parar a dor familiar que emergia dentro de mim. Por fim, mordia os lábios na tentativa vã de prender o sofrimento que ia se aflorando, de prender o sofrimento para não se expandir pelo resto de seu corpo, para não cair como lágrimas em cima das suas bochechas avermelhadas.
Existe uma história romântica,linda sobre um pequeno menino, que acredita na volta de um cometa quando todos os cientistas e pesquisadores afirmam a impossibilidade do fato, e algumas vezes esse menino até já esteve entre a maioria das pessoas desacreditadas, mas ele amava o cometa, e precisava acreditar no dia em que o cometa chegaria para trazer de volta a cor, a arte e a vida para ele.
Eu fui esse menino no passado, e acho que sempre serei.
Não que esses dias acabaram quando saí da escola,
quando não tive mais que ver tudo e todos acreditando no que eu achava um erro,
quando não tive mais que erguer forças de onde não haviam para levantar de manhã,
quando não tive mais que usar a mesma roupa todos os dias,
quando não tive mais que ser proibida de expressão,
quando não tive mais forças esmagando minha paixão,quando não tive mais que escutar no abandono frases caídas de podridão,
quando não tive mais que ver as consequências e os machucados nas pessoas desse erro escolar.
Não, não acabaram quando meus pés abandonaram aquele lugar...


Ainda ficou aqui, toda a dor.


Mas veio o tempo que não existia
e junto com ele a liberdade,
e a chuva,
e as flores que nasceram,
e, as flores que já tinham nascido.


E assim, esses dias beirados finalmente acabaram.