sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

As conchas, que eu não sei se são do meu quarto.

Ando sentindo esse lugar  menos como meu,
em algum momento, se perdeu em mim, esse meu jeito de ver o mundo
de escrever as coisas,
de amar as coisas.
Está sendo como um grande amigo meu disse: Minhas palavras se perderam no caminho para a boca.
Eu diria que as minhas não encontram o caminho para as minhas mãos. De surdo. De marcas de lápis escuros.
Afinal, como bem sabem aqueles que me conhecem
Meu som nunca foi reflexo de minha voz
Os sons que saem desses lábios congelados são muito pouco meus.
As letras.
São essas minha voz.
Essas palavras desenhadas
pelas minhas mão sozinhas, guardadas.
Elas que respiram meu ar e cospem meu amor para o que quer que seja esse enorme globo azul.

Há uma concha na minha escrivaninha.
Repito,
Há uma concha branquinha na minha mesinha de vidro.
Eu quase não acredito.
Mas muitas palavras precisam ser repetidas e traduzidas
porque só assim a gente pode se acostumar com a verdade que contêm elas.

Tão quebrantáveis as duas são... Estilhaços. Pequenas poesias caídas em pozinhos no chão.

É bom ter um pedaço do mar no meio do coração da cidade.
É bom andar nas calçadas fechadas e ver um pouco de areia e alguns pedaços de conchas quebradas.
É bom saber que tudo isso um dia foi água.
E que antes de ser água não era nada.

Que as coisas se destroem e se reconstroem.

Essa tristeza desbotada que sustenta meu olhar
nas horas mais geladas
olha agora para essa concha tão amarelada:
Tá tão deslocada...


Mais que lugar esquisito para ela! Não é?

Mesmo assim, todos que passam
também sentem, lá de longe,
uma calma emanar dela.

Essa concha é tão carregada!
As mínimas cores espalhadas:
o alaranjado dos pés, o cinzento do alto, os pingos de vinho claro e o branquinho que destoa pelo seu corpo manchado.
As linhas afiladas fazem seu contorno: do céu ao chão.
Essa concha carrega uma história
e cada traço, cor e forma
que são sustentados por ela
de algum modo,
a suspendem também.
Mantendo-a de pé.
Estável num mundo tão esquisito
que não parece o dela. 


Essa concha, que também guarda uma parte minha...