sábado, 30 de janeiro de 2016

Sossego, em uma última lágrima.

Briony estava parada em frente a janela do seu quarto. Na maioria das vezes ia para lá afim de encontrar o ar que não havia dentro de casa. Os gritos ardiam como fogo que atravessavam as paredes de seu quarto e de seu fone de ouvido. A janela era seu lugar de momentos difíceis, lá ela podia enxergar que o mundo ia muito mais além. Além daquelas atitudes agressivas de seus pais. Além do silêncio interrompido. Além da dor que a cercava. Entendia olhando pelas bordas da janela que o mundo podia ser muito diferente daquele que lhe proporcionava dor todos os dias. Cada pessoa ali tinha uma história, percorria um caminho que ela desconhecia. Também gostava de olhar para as nuvens e pedir que todo aquele silêncio azul adentrasse seu coração. A paz que habitava o céu era tão escandalosamente morna em comparação com as avenidas desarmoniosas. Ela não sabia, mas procurava inconscientemente um único exemplo de que a vida pudesse ser mais branda. Era só o que ela precisava, um exemplo da mais pura harmonia. Um exemplo de que sua vida não seria assim para sempre. Briony também gostava de conversar com as árvores, mas por pensamento. Entregava-lhes seus sentimentos e elas lhe respondiam através de seus famosos balanços. Se sentia sincronizada com aquelas almas verdes e sabia que elas podiam lhe ouvir. Era só a confirmação das folhas agitando-se e pronto,e já estavam emanando um pouco de paz. No fundo, ela sabia que as pessoas daquela casa não a pertenciam e por isso seu estômago virava um embrulho de dedos gelados toda manhã. Eles não entendiam a magia dos livros, mal ouviam música, nunca souberam conversar, na verdade, pareciam esta apodrecendo… Ficava pensando se alguma vez, quando tinham dez anos, seus pais se sentiram assim… E acalentava a esperança de que sim, pois a possibilidade conclusiva dessa afirmação levaria a acreditar que parte desse sentimento de abandono ainda existiriam neles e somente assim, poderiam compreendê -la.

                                                                         Jan,22.

Sono, quem diria.


Oh! Como eu gostaria ter a brandura do ‘fechar-se’ desses olhos.
Como eu gostaria que em meus olhos não houvessem explícitas as sombras que sobrecarregam com tanta peculiaridade pelo mundo…
Como eu gostaria não precisar-lhes impor o fechamento das cortinas no anoitecer tardio…
Como eu gostaria que parassem de tentar vencer o cansaço tão obstinadamente nas madrugadas sórdidas de minha alma.
                                                                                                                                  Jan,29.

Ausência perene

Eu não sei o que faz essa tristeza andar lado a lado comigo, apertando a minha mão tão forte. Eu sinto falta das pessoas. Todo contanto virtual é pouco. Não me satisfaz. Toda magia, horror e sentimento lento que a presença real trás, evaporou. Eu não sinto mais a surpresa de ser tocada pela pele macia; eu não vejo mais a beleza do contraste, seja o da cor do cabelo escuro com a pele clara, seja a do vestido amarelo sobre a pele negra… Não vejo mais aquela estrela que brilha no olhar quando a boca conversa sobre algo que a mente ama; eu não vejo mais os fios de cabelos desgrenhados,bagunçados que tanto adoro; eu não escuto mais o som de uma voz que vibra nas ondas sonoras o (meu) mundo, que reflete o eu, e que se espalha invisível no silêncio do horizonte. 

Olha, faz muito tempo que eu não paro para amar e para observar com delicadeza as infinitudes de alguém, sinto falta de quando os olhos se apertam no contexto certo, sinto falta dos murmúrios evocados durante uma conversa qualquer, sinto falta dos traços, aqueles que desaparecem e reaparecem na face em sintonia com as emoções determinadas de cada um. Enfim, é essa falta que me mata. É esse caminhar simultâneo das expressões com os pensamentos de todo ser humano que desapareceu. Todos parecem meio mortos ou inalcançáveis. 

É por isso que me apego aos livros, onde borbulham as almas de escritores vivos, onde leio o coração daqueles que escreveram suas histórias. Desejo ardente de ler Virgínia Woolf, sentindo cada paradoxo de suas frases, sentindo a respiração complexa dos personagens, e vendo, na medida que passam-se as páginas, o surgimento de um mundo lindo que ficava por trás de seu olhar. De um olhar perene e detalhístico sobre a realidade que foi se jogar nas palavras.

Hoje quero sentir que nem todos são normais. Uns chatos e medrosos demais para se exporem ao mundo. Para se abrir aos outros. Todos parecem se esforçar demais para permanecer na superficialidade das relações humanas. Assim, acabam deletando o resto de suas partes. Deixando-se para o passado, aquele pedacinho de infância que se perdeu no tempo…
                                                                                       
                                                                                                Jan,12.

Morte


A tinta que hoje me falta os lábios, que hoje me falta nos olhos, eu posso pegar das flores? Com a promessa de devolver o carinho? Vamos lá, flores. Me doem um pouco da natureza que guardam em si. Me doem um pouco das cores que jamais encontrarei nessa cidade. Eu desisto. Não vou mais procurar no lugar errado. E no futuro, haverão centenas de girassóis apontados para o céu, revoados pelos sons do vento, em minha direção. Nós seremos a mais fiel representação do amor. Eu cuido de vocês. E vocês cuidam de mim.
  
                                                                                                                Jan,6.

Re-custura.

Sinceramente? Cansei daquela minha parte que escrevia pros outros. Muitas vezes, nós seres humanos, transformamos a consequência de uma determinada ação no motivo para fazê-la, mas consequências, são consequências, apenas deveríamos esperá-las. Sabe, acabei perdendo a minha essência ao perder a essência das coias que fazia.
Eu não estou pronta para perder uma pessoa agora, e também não quero me esforçar a estar. Eu não consigo encontrar a verdade que está por trás de mim. Eu não encontro minhas próprias entrelinhas. O que eu faço e porque eu faço? Qual a necessidade que causa minhas ações? Amor. É, o amor que falta em mim. Porque sou assim mesmo, vazia.
Talvez eu sinta mesmo o tal de "orgulho". O orgulho de deixar entrar todas as causas que me espancaram. Talvez não seja a religião. Talvez seja o meu pai. Talvez a religião contribua para isso, mas assim como ela contribui para outras mil coisas boas. Que choque. Sempre odiei essa crença em Deus pelo o que meu pai faz através dela. Mas talvez eu esteja errada, talvez o errado foi mesmo o que meu pai fez através da religião e não o que ela fez a ele.. Eu não posso culpá-la. E talvez nem meu pai. Nossa, tudo me machucou tanto que eu realmente agi que nem uma criancinha odiando o alvo errado. Certo, tem muitas coisas que eu simplesmente  não concordo na religião, mas eu não preciso me manter longe da crença em um deus por causa disso. Eu realmente posso discordar. Eu realmente posso acreditar no que eu quiser. Porque não? Não devo me limitar aos dogmas de uma Igreja. Eu devo acreditar apenas no que eu sinto como verdadeiro e certo. Acreditar ou não em deus traz muitas guerras.
Eu quero é me manter em segredo. Quero esconder todos os meus calos e machucados - as cicatrizes que ficaram. Mas eu também quero ser descoberta - não só isso! - eu quero que o descobrir seja gostoso, seja amável. E isso, eu odeio. Eu odeio necessitar de alguém, no entanto sei que quanto mais rápido aprender isso melhor: nós não sobreviveríamos sozinhos. Eu, pelo menos, não. O engraçado é esse auto enganar-se o tempo inteiro, dizendo que sou forte. Não sou. Sou cheia de medos. Mas agora não me escondo naquilo que eu queria ser, agora, quero entender o que verdadeiramente sou nesse presente, para depois poder remendar algo por cima. Não quero me dar por metade.
Sabe, eu posso ser uma boa pessoa sem acreditar em tudo o que a religião trás, eu até nela mesmo. Mas tenho que saber se o motivo desta recusa será puramente sobre mim. Não vou me esforçar a gostar disso por alguém. Esse alguém terá que gostar de mim pelo o que eu sou. Ainda tenho muitas dúvidas. E muitas opiniões contrárias. (Eu não vou fazer isso, eu não vou fazer isso de jeito nenhum. Não vou fingir me entregar a algo que eu ainda não estou confiante para ficar com um amor e nem ter a certeza de que ele ficará)
Olha, eu acho que posso até acreditar em deus, mas nunca vou me entregar assim a sua religião. Ela distorce muito a realidade. No entanto, não quero abandonar o Shalom e as pessoas de lá.
Minha impressão é que sempre vivi  a base de sombras do que eu achava que era.
Qual parte era a inventada e qual parte era a real?
Eu sei que um dia você vai cansar. Eu sei bem disso. Mas eu também preciso parar de tentar adivinhar o futuro e ter medo de que as coisas se vão. Não adianta mesmo fazer elas ficarem acreditando em algo que não gosto. Eu não posso não ser eu. Eu sempre vou questionar as coisas. Basicamente tudo. Eu preciso tentar não me apegar tanto. Caralho, tudo na vida é assim, as pessoas ficam juntas porque de alguma maneira elas precisam do que o outro possa ser para elas.
(...)

~ Sobre nós e esse eu que ainda não sinto tão meu.


Sabe, conviver com vocês era a melhor coisa do mundo. Com certeza uma das melhores coisas que já me aconteceu. Minhas amigas. Melhores amigas. O mundo não deixava de pesar, mas era diferente…Quando eu tinha vocês, o meu abrigo era muito maior. Eu mesma, era maior! O nosso separar não foi porque desatamos os nós, mas sim porque precisávamos criar outros. Com os nossos sonhos. Fomos atrás de cursos diferentes e de ambientes diferentes. E tenho certeza hoje que a minha queda foi muito grande por me separar de vocês no ano 2012.
Não vou entrar em detalhes das minhas histórias com cada uma de vocês porque assim precisaria fazer vários textos. Então, vamos falar do geral. Daquilo que era comum em todas nós. 
Quando nos distanciamos, eu me perdi de várias formas. Lembro que bem no início a dor parecia muito grande, era tão grande que ocupava todo o espaço em branco.Todo aquele branco que eu poderia vim a ser. Não me deixava criar novas histórias, abranger meus muros, afrouxar as minhas fitas tão rígidas, conhecer novos mundos. Era duro demais. E talvez eu tenha deixado essa tristeza ficar por tempo demais. Abri as minhas próprias portas pra ela adentrar meu coração e a deixei permanecer… Me pertencer, porque essa dor, não me deixava soltar de vocês. E algo me dizia que se a deixasse ir, talvez, só talvez, perderia tudo que tinha de nós. Vocês entendem? Não agarrar tal sofrimento, significaria superar a nossa perda. E eu não queria seguir em frente. Eu não estava pronta. Meu mundo era maravilhoso ao lado de vocês. E daí, eu me machuquei bastante. Minhas lágrimas tão redondas não serviram de armadura contra o mundo. Eu corria na direção contrária que a vida teimava em me levar. Rejeitei por muito tempo o meu presente. Pois não queria deixar ele levar as lembranças do nosso passado. 
No fim, em alguma hora ou outra, acabei deixando algumas portas abertas, algum b®anco descoberto, mas querem saber? Isso só foi outro choque. A realidade era outra. As pessoas eram tão imensamente diferentes de mim. Eu não me adequava àqueles mundos. Não ao da escola, não ao dos alunos, não ao dos professores, não a essência daqueles muros. E então, eu só me vi caindo, caindo… As minhas asas? Sumiram. Eu perdi tanta cor…
Confesso que na época e ainda ontem, eu procurava nas pessoas esse nosso jeito de se relacionar, de se amar. E de se ter. Mas esse pertencimento igual ao nosso, eu não encontrei… Hoje eu sei bem que igual ao nosso, igualzinho, não tem. E até eu entender isso, eu já havia me perdido.
Mas também não vou dizer que tudo foi sofrimento, algumas pessoas amorteceram as minhas quedas (como Nanda, Dolfo, Paçoca, Dexter…). E elas ainda possuem um pedacinho de mim, e ele vai ficar lá por quanto tempo permitirem. Assim como eu, as mantenho por perto. 
Mas então, a distância foi crescendo e nos visitamos cada vez menos, passamos 2014 (3º ano do ensino médio) quase sem se ver. Não fazíamos mais parte da rotina uma da outra. E mudamos. Muito. Transitamos de colégio para faculdade. Passamos por tanto problemas sozinhas. E agora, depois de quatro anos de encontros e desencontros, eu tenho medo. Eu morro de medo de vocês não se encaixarem. Porque a rotina é outra, e nós estamos tão diferentes… Eu perdi tantos pedaços de mim sem vocês… Eu acumulei tanta tristeza que me vejo meio cinza e meio azul…Não mais verde.
Também tenho medo de nunca mais voltar a ter meus pedaços de volta, porque eu sei bem, eles faziam parte da minha essência. Por isso que amo tanto reencontrar vocês! Eu me sinto de volta. (Aos pouquinhos, claro) Esse eu desperta como se ainda estivesse ali, apenas esperando uma oportunidade para voltar.
Mas esse eu incompleto que sou hoje, ainda não aceito bem… É muito difícil ver quem se é, e abraçar esse eu sem ter a certeza de que ele realmente lhe pertence… Mas estou aprendendo… Eu espero.
E um dia, espero que esse medo não me prenda tanto assim, que eu me deixe ser de vocês, que eu não tenha medo de vocês não gostarem dessa nova eu, que eu me permita, que eu adore o risco novamente. Pois assim poderei me dar por inteiro e agarrar vocês aos meus dias, completamente. 
(Um último segredo? Ontem, finalmente, eu pude ver os primeiros nuances desse meu grande medo desbotarem de mim.) 
(;
- Para: Marina,Carol e Júlia. 

                                                                                                                                Jan,14


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Cinema é pra ir.

Quase dói não ir lá. Cinema é um desses lugares que você precisa frequentar as vezes (certo, as vezes muitas vezes) para sobreviver a todo transtorno que o mundo lhe trás. Saudade daqueles filmes sensíveis, singelos e incríveis. Saudade do abraço de pazes entre mim e o mundo ao sair de cada sessão. Daquele bem-estar. Saudades de ao chegar, subir aquelas escadas assistindo os vitrais que - apesar de antigos, eu sempre me surpreendo -nunca parecem os mesmos. Além de que nos acompanham a cada degrau solícito. Saudade de ficar sentada na poltrona fingindo que o longa ainda não terminou e ser uma das últimas a sair da sala, não me lembro se já clara ou escura. Saudade da ânsia de criança que suspendia meus olhinhos brilhantes ao fim da sessão. De sair meio saltitante por saber que o mundo ainda guarda um pouquinho de mágica dentro de si. E que de alguma forma, essa mágica foi me dada, e me pertenceu por algumas horas e alguns minutinhos depois. Saudade do café gelado e da madeira espalhada. Saudade até da mulher estrangeira cheia de tatuagens e simpatia que serve as comidas caras. Cinema é pra ir, não pra deixar que a vida lhe mantenha longe dali.

- saudades Fundaj -