sábado, 26 de setembro de 2015

Onde está a essência da humanidade? (Terminado)

O vazio a perfurou.
Tara estava sozinha em casa. Eapenas longe dos seres humanos é que abria as portas para seus sentimentos escorrerem. 
Os sentidos, todos eles, se desfizeram como nós derretidos.
Ela olhava pela janela do seu quarto cheia de sentimentos intraduzíveis, sentimentos que não cabiam mais dentro dela.
Nenhuma música, nenhum som, nenhuma palavra poderia traduzi-la agora.
Mas a pouca racionalidade que ainda restava em sua mente, continuou a procura do que parecia ser inexiste, escondida do resto do corpo. 
Nada se encontrava.
Tudo estava perdido.
O mar? estava tão longe...
O que havia com a sociedade? Pensava ela.
Nem seus próprios pensamentos eram originais e fortes agora, pois todos eles, de um jeito ou de outro, acabavam se esbarrando no meio do caminho com suas fraquezas, sendo influenciados a todo custo pelo medo.
Aquele desgosto humano a encobriu. 
Tara sentia a repulsa de si mesma escorrer pelo seu corpo.
A agonia tomava conta do seu corpo com uma voz própria
e sua consciência se desmanchava no nada.
Como faria ela para se proteger de si mesma?
Não confiava na sua autoconfiança.
Não acreditava na base de suas crenças.
O que realmente está por detrás de todas as palavras soltas nas igrejas, nos livros de auto ajuda, ou nos divãs? Continuou pensando ela.
Tudo se limitava a preencher o vazio humano.
Cobertores do medo e da solidão.
Necessidades.
Pilares de um teto.
O que é um ser humano sem crenças?
Será humano?!
Será que nós só somos humanos quando a vida nos habita? 
Ou as mortes também nos compõem?
Muitas perguntas...
Ultimamente,eram suas únicas visitas.
Se sentia perdida, solta num mar de névoa e escuridão.
Percebia que a fuga dos seres humanos, não estancavam seus sofrimentos.
Como faria para se soltar das amarras que havia, ela mesmo, se prendido?
As correntes não eram palpáveis, estavam emaranhadas num mar de causas e sentidos que ela mesma desconhecia.
 Como desabitar algo que fora, um dia, necessário ser habitado?
Toda a dor a preenchia agora.
Àquelas conversas, aquelas risadas, aquelas pessoas,
nunca chegavam a lugar nenhum.
Os seus corações permaneciam desabitados.
Preenchidos pela ausência de brotos e pelo chão sem raízes.
Não havia nenhum sinal de empatia ali que não fosse falso.
Não cativados, porque não tinham tempo ou vontade para se deixar cativar, eram seus corações.
Os olhos de Tara, nunca haviam se deparado com terras cardiológicas tão secas como aquelas.
Que mundo era esse?!
Onde estavam os sorrisos sinceros,
o risco de mergulhar em alguém desconhecido,
as palavras cheias de sentimentos profundos,
a sinceridade sem propósito,
a compaixão mundana?











sábado, 19 de setembro de 2015

O dia não pode ser uma despedida.

Ficar longe de você, é como ficar longe de mim.
Por isso sinto a distância como um perigo entre nós.
Caso ela se materialize entre nossos corpos tão frágeis, irei me perder de mim.
E um buraco crescerá enorme aqui,
Mas preciso te dizer isso:
Não importa quantas máscaras você escolha ter
ou por quanto tempo elas fiquem com você
um dia, você vai ter que ser você
Nesse dia, você terá que suportar o peso acumulado de ter sido alguém que não queria, mas que sentiu precisar ser.
um dia, os seus medos vão se eerguer
e nenhuma máscara será capaz de te proteger mais,
Eles vão te bater forte, amigo.
E se tornarão muralhas altas demais
Mas até mesmo escolher outro alguém para ser
quando não quer ser o que já é
te faz singular,
porque, afinal ,
algumas máscaras são parecidas
mas nenhum é igual.
E eu desejo ardentemente conhecer todas as suas máscaras
E te proteger quando seu maior inimigo for você
Garanto que quero estar com você até mesmo quando todas as suas cores se despedirem
E eu quero que essas palavras sejam como pontes entre nós
Que esses sentimentos cresçam para andarmos sobre eles
Porque nossa amizade é tão linda, ela não pode morrer

( em construção ~~)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Quando os ponteiros nada dizem sobre o seu tempo

O olhar do relógio me petrifica e seu arrastar me parece infindável.Ignoro os movimentos supérfluos, as vozes diversas e os cheiros dos perfumes imódicos que agora envolvem meu assento nessa manhã nostálgica. Convivo com histórias  ao redor de mim que não me interessam mais. As pessoas murcharam para mim como flores que despencam suas metades de vasos sombrios. As suas quedas lentas trazem uma agonia insegura para a minha esquisita consciência. E ao mesmo tempo me confirmam a lamentável verdade de que todas as coisas estão morrendo. Morrem de espírito aqueles abalados pelas forças enormes das ventanias. Eu sei o que está acontecendo: a vida está com pressa. Meu coração bate acelerado e a solidão quase me queima os pés. Não se passaram mais do que três minutos e todos esses sentimentos decidiram assolar a minha alma: o sentir jamais poderá ser acompanhado ou definido pelos ponteiros do relógio.

domingo, 6 de setembro de 2015

Felicidade repentina no meio da tarde

Estar bem depois de anos de tristeza é como segurar um sorriso no olhar que voa pelo céu
Finalmente se sentir bem é como caminhar com os sonhos indicados pela leveza e simplicidade dos passos 
Felicidade é ficar bem horas a fio com si mesmo. 
É estar sentada na cama vazia mas não sentir falta de ninguém lá.
É estar consigo. Estar em si. 
É sentir que a amizade dos amigos e o amor do amor fazem parte de você como um pedacinho seu.
Saber que a inseparabilidade não está nos corpos agarrados mas no sentir, mesmo separados, alguém com você, ou seja, ter a consciência de que não está sozinho, mesmo fisicamente estando. 
Tenho hoje, fazendo parte de mim, muitas histórias,
histórias que li, história que vivi, histórias que cresci.
Todas as histórias me fazem hoje. Até as que eu não lembro. Histórias de pessoas. 
Rostos, pés, maneiras, passados, sorrisos que não são meus mas os quais fui deixando me fazer.
Tenho guardado a sabedoria de que minha alma está cheia e longa.
Também percorre todo o meu corpo as lembranças fincadas gentilmente e dolorosamente sobre o meu coração
Agora eu as vejo 
Nos us formados entre os meus dedos do pé 
No meu joelho torto e cicatrizado
Em minhas pequenas ações
E nas palavras que saem dos meu lábios 
Que hoje compõem o meu 
mais mutável  eu. 
A vida 
não para 
Fica marcado em mim aqueles que de forma direta ou indireta construíram 
Modificando 
Derrubando 
Criando 
-O que quer que seja- já me compusera antes 
Eu não sou um 
Sou vários em um 
Sou todos os pontos matemáticos que fazem as três restas do número um. 
Possuo na memória
O cabelo de Júlia que acabara de acordar
As explicações curiosas de Carol 
O jeito de colocar o cabelo atrás da orelha de Bárbara 
A voz de Caio 
As fofuras de Rodolfo 
A dança e a alegria de Diana 
Os medos infantis de Mariá 
As brincadeiras com Bruna 
Enfim,
Sou todas aquelas vozes que alçaram 
a profundidade de minhas mornas águas e atravessaram a escuridão do meu mar 
Sou todas aquelas vozes que deixei ancorar dentro do meu lar
Também eu sou,
A montanha que se perde 
para o intemperismo eólico
Mas também sou eu, 
a montanha que recebe das simpáticas ventanias outros grãos
Eu sou essa imensidão 
que sofre transformações 
Sou o oceano
Desconhecido de mim mesmo 
Aquele com muitos segredos 
Sou
Tanto aquelas furiosas ondas quanto aquelas que rastejam de volta para o mar
Aquelas que rastejando, tentam alcançar uma areia intocável, aquela areia fofa que nunca foi lambida e se mantêm seca até hoje
Também sou essa fina camada de onda acabada que muitas vezes não resiste e recua para o lugar que partiu
Sou, mais do que sou, 
o tempo todo. 




sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A cor que pousava sobre meus olhos

Certa vez, estava eu num café - mas não qualquer café, esse, era um dos meus preferidos: nele, sentia toda a suavidade pairando sobre os sorrisos mais simples do mundo, eu podia sentir a  tranquilidade balançando nos vestidos coloridos das moças, ao mesmo tempo em que sentia o reflexo da humildade a caminhar junto aos sapatinhos que entravam pela porta; o café estava longe de ser um desses que apenas os ricos frequentam, logo, a ausência dessas pessoas que murcham a agradabilidade do ambiente com suas cansativas investidas de exibição social, anunciado suas chegadas com sorrisos igualmente gelados, barulhos de salto alto e jóias balançando, tão acompanhados da falsa cordialidade, era formidável.
  Não era propriamente a soma desses fatos que me deixavam mais à vontade no café, mas principalmente, todas as paredes vinho avermelhadas serem cercadas por quadros fotográficos  de cor preta e branca. Minha semelhança com essas figuras incolores era maior do que com as pessoas de carne e osso ao meu redor. Chegava até a achar que a imagem dessas pessoas já mortas, exalavam mais vida no balanço dos seus traços - capturados pela câmera - do que muitas outras que meu corpo chegara a conviver até então. Seus olhares não evasivos, alcançavam minha alma e seus gestos cheios de carinho antigo me convidavam para sermos amigos. Me via pertencendo àquelas pessoas principalmente porque nossos limites de relações humanas eram meras observações diárias. Sentia em cada milímetro de meu corpo que aquelas pessoas me entendiam, e que eu estava presa ao mundo delas, mesmo estando fisicamente fora dele.     
As vezes, podia ver o presente nos quadros acontecendo. Podia ver seus movimentos antes e depois do clique fotográfico, podia ver o tempo transcorrendo pelos momentos de suas vidas já terminadas - quando ouvi uma mulher sentada na mesa 11, a qual devia ter a mesma idade que a minha, dizendo para uma moça, que a julgar pela aparência, provavelmente devia ser sua filha: Não acredito! Essa cara de novo? O que que é difícil na sua vida? Vamos, me diga! Você não precisa fazer nada, não precisa trabalhar, nem pagar as contas, sua única obrigação é estudar! Isso é preguiça e muita má vontade. Não me venha com explicações mal feitas. 
Quando ouvi essa fala, imediatamente fui reportada para uma lembrança de meus tempos no colégio: era um dia claro, e eu não sabia quem queria ser. Não profissionalmente, pessoalmente. Só estava ruminando(tentando aceitar) a ideia de que precisava ir a escola, quando tudo que precisava era ver o mar para ir em busca de respostas que não existiam em livros didáticos ou nos professores obcecados pelo vestibular. Tudo que precisava era transformar aquela nuvem de negror estacionada em minha mente, carregada de problemas, e joga-la onde o vai-e-vem das águas pudesse lavar. E assim toda a escuridão escorreria para misturar-se com o azul do mar. 
Tudo que precisava era parar de chover. Queria escutar minhas aflições encharcadas de interrogações e não ter que guarda-las mornas numa pequena caixinha para ir a escola.
 Além disso, tinha o uniforme. Não podia escolher as roupas escuras nem as frases que iam ficar estampadas sobre mim. Meus pincéis foram presos pelas normas da escola. 
Foi quando, caminhando mais morta do que viva, para ir ao banheiro escovar os dentes antes de partir, surgiu uma ideia. Eu, que nunca usava maquiagem, contornei meus olhos com a escuridão do lápis de olho emprestado da minha mãe. Aquela era a forma de libertar meus gritos sufocados pelas exigências rigorosas do dia a dia. Aquele lápis, virou o meu pincel corporal. E eu, mais quadro meu, do que de museu, fiquei exatamente com a cor que precisava estar. Sem vedações. 
Quando cheguei na escola, o mundo inteiro estranhou. Mas eu não, a diferença não era muita para mim, podia até ser para elas a primeira vez que me viam assim, contudo, tal escuridão já virara familiar em mim. Sem ninguém perceber, a infinitude negra já apertava minha minha alma solitária há meses. Agora, seu nome só mudara de oculta para explícita.
Num instante, estava de volta ao café, pensando na quantidade de coisas que aquela mãe ignorava sobre a sua filha. Ela esquecia que normalmente regiam a mente passagens, transformações e conflitos internos. E que, não é apenas por ser de menor que o motivo da tristeza é descartável, insignificante, banal. Pensei que talvez, se ela tentasse entender a forma como sua filha via o mundo e aqueles pensamentos que compunham sua personalidade, invés de apenas reclamar das obrigações não feitas, seria melhor. 
Tentei jogar um olhar compreensivo e um sorriso de quem entende para o rosto impaciente e decepcionado da garota. Quando ela viu, seu semblante primeiro estranhou, depois me olhou sério, até que pude ver o movimentos dos lábios para o lado fazendo brotar as primeiras sementes de um -quem sabe-futuro sorriso. 
Acho que ela entendeu que eu a compreendia, pensei levantando para ir embora. 
Sai do café com a sensação de uma cor preta se formando sobre minhas pálpebras e com a mente ainda nas fotografias penduradas.