segunda-feira, 30 de março de 2015

Sem título

Balança no céu agora uma imagem
de um anjo caído
Balança no céu agora seus pés inquietos
Balança no seu agora, suas asas rasgadas
Balança no céu agora
uma tentativa.
Balança
a imagem do tormento coberto pelo desespero
Balança
mas não cai
o reflexo intenso e remexido
de um amigo próximo
de um eu imaginário
E chove
chove a chuva que chateia
os corpos apressados no asfalto
Mas ninguém olha pro céu.
E ninguém vê as lágrimas
que caem
desesperadamente
afogadas em si mesmas
E eu
espectador único de mim mesmo
me desmancho
numa linda, horrível e solitária
poça d'água andante
e pisada.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Se nada mais diz o que poderia ser


Minha mente se destrói a procura de respostas perdidas em você
Não dá para construir um futuro seguro para nós  sem saber os desdobramentos da essência do seu passado que lhe faz hoje
Esse passado que sussurram em mim vozes difíceis de calar. Vozes que me anoitecem.
As linhas confusas que te fizeram hoje
Não são as mesmas que te fazem agora
E eu temo que suas mãos estejam demasiadamente agarradas a um hoje antigo que pode lhe surrar
As pancadas rígidas em meu corpo soam como sua voz
As palavras armadas me destroem
Enquanto meus pés procuram um chão seguro
E meus olhos se perdem no horizonte
Minha respiração turva e solitária desaba silenciosamente em você
E a melhor das tentativas não vão passar de tentativas hoje
O tempo em seu dinamismo embala meu corpo paralisado em dúvidas
E nada mais consegue escorrer pelas minhas veias
Como numa prisão meu coração abarca sentimentos inseparáveis de mim
Só não desgarra das minhas atordoadas elucubrações
O caminho desconhecido que traçam nossos pés





quarta-feira, 11 de março de 2015

11/11/2014 aproximadamente...

É sobre não ter ninguém.
É sobre viver em um mundo que lhe atroçoa.
Os sorrisos que salvam uma alma.
As risadas que aliviam olhos perturbados.
" A fome "
Terminou de ler em voz alta para a classe, os últimos versos de seu poema. Não lia para que gostassem ou para que até mesmo ouvissem, fazia aquilo por que era uma mera obrigação escolar.
Escrevia em seu caderno quando sentia falta de conversar com as estrelas, agora desaparecidas no céu esquecido pela cidade.Olhar a lua era seu passatempo.
Mas não conseguia fazer com que tudo que lhe era seu escorregasse pelas suas mãos.
Sentia vontade de buscar. Mas buscar o quê? Não tinha um nome. Algo que já havia se perdido.
No fundo, sentia que sua vida podia ser diferente, mas de um outro modo e tendia a pensar que esse modo estava próximo aos livros, as páginas impressas, e aos escritores mortos. Sentia que não havia vida nos pés que caminhavam juntos aos seus pela calçada de manhã.
Se arrependia do que havia feito e não sabia como voltar para o ponto do qual tudo começara a mudar.
Ela fora desistindo de si para construir uma nova estrada, esta, se encontrava nas vestes sombrias que adentravam em seus olhos e permaneciam lá. Gradualmente, pensava, a velha estrada paralela a qual estava nesse momento instabilíssimo, fora sendo submetida ao vazio, desmanchando-se sob seus pés, pela contribuição desnorteada de suas mãos frenéticas.
E agora como faria para voltar?
Olhava para o horizonte de forma a procurar no infinito universo o seu antigo lar, o seu passado lar.
Esse episódio longo de sua vida podia ser comparado a quando crianças pintavam cascos de jabutis em um gramado verde de um sítio...
Ela se entregou a esses dedos melados de tinta, deixando que pintassem cada compartimento de sua casa, e essa, desde então nunca mais fora a mesma.
As cores de tinta que passavam um ar de normalidade saudável para o resto do mundo,
a adoeciam, não a permitiam respirar.

...

Senti a serenidade chegar a minha perturbada face essa tarde.
Bem deitada em seu peito senti transbordar o conforto e a futura paz direto da fonte palaciana do seu coração.


As nuvens.
As nuvens que estão na janela do seu quarto.
Foram elas que anunciaram essa chegada tenra e molhada nessa tarde que mudara meu estado deplorável para um conforto inimaginável.


A inércia desses algodões evasivos me despertam, exibindo um futuro tão próximo que já está acontecendo: a paz do amor.

"Meu erro foi amar mais minhas palavras do que a mulher que as inspirou" Do filme As palavras

"Para que serve um dia que só serve para esperar o próximo?" Do livro Luna Clara Apolo Onze

segunda-feira, 9 de março de 2015

As nosas redes

Fico tentando chegar as minhas formas de ideal
Devorando o presente
esquecendo de mastigá-lo direitinho
É bem assim ó:
engulo de vez.
E só quando o vejo lá dentro
tão passado
é que me arrependo do que deixei de experimentar
e ainda me atrevo a dizer
à pessoas mais novas do que eu
qual é a melhor época para se viver


Nossa gente!
Quanto tempo vai demorar pra perceberem que tudo isso é mera ilusão do pesar?
Nenhuma idade é melhor do que outra universalmente
Cada vida tem os seus momentos preferidos e esquecidos.
Não existe época melhor e pior para se viver,
cada época tem a sua cabeça
possui os seus detalhes
cada época tem suas experiências
e vivências.
Todos esses discursos me parecem românticos demais
enfeitando o passado com flores afim de transformá-lo em refúgio para os dias atuais
esquecendo as dores
esquecendo os temores
Não serei assim
E quem disse que cada época tem seu fim?
A idade há muito não nos aponta sinal de maturidade somente uma ínfima possibilidade
Ser criança
adulto
ou idoso
tem seu lado claro
e escuro
Nós que criamos essa tendência de preferência
que só aumenta
por causa das redes envolvidas por nossas próprias mãos
em nossos corpos e mentes.









Virgínia Woolf

"Jacob foi até a janela e parou com as mãos nos bolsos. Viu três gregos de saiote; mastros de navios; gente ociosa ou ocupada, das classes mais baixas, vagando ou andando rapidamente, formando grupos e gesticulando. A falta de interesse dessa gente por ele não era a causa da melancolia de Jacob; mas uma convicção mais profunda - não de que ele próprio estivesse solitário, mas de que todo mundo é solitário."                                                                        O quarto de Jacob

sexta-feira, 6 de março de 2015

Certamente, esse não é o meu lugar.

Em noites solitárias
ando pelo asfalto rigoroso
cada passo parecendo ser lentamente
enquanto todo o meu corpo se desfaz
nas brumas (d)esclarecidas de meus pensamentos incognoscíveis
que se misturam a imagem destroçadora do real
Gigantes cinzas
adormecem a cidade que aparenta
externamente
está tranquila
mas é tudo tão perenemente falso
Há desassossego na cabeça de cada um que posso enxergar
Eu só não sei se essa ilusão tranquilizadora e calma da cidade
na qual só enxergo nesses momentos malogrosos
piora ou elucida meu estado
Eu não sei se
só me irrita ou me dá um alguns segundos de sossego.
Penso que diante desse véu que me cobre de tormento
saí de mim
e conseguir enxergar uma calmaria na noite escura
é como uma última tentativa a qual minha mente realiza
na tentativa quase vã de me acalmar. 
São meus olhos desesperados que procuram uma saída e esbarram na própria ilusão momentaneamente útil.
Mas meu coração permanece frenético e angustiado
diante desses altos retângulos luminosos
diante de cada automóvel
diante de cada minúscula partícula luminosa e destruidora
que segue a civilização.
Então me movimento ausente pelo chão que devora meus pés calados
E a gritante locomoção
ininterrupta
adentra em meu peito
e perpassa pelo labirinto de minhas cores
causando um cansaço inalcançável
causando um tribulação imensa em mim.
Todo esse fluxo interminável também me torna invisível aos olhos do passado e do futuro
me inserindo sem dar boas vindas
em seu tom único e deplorável.
E com suas garras
tenta por fim
me esmagar
mas minhas muralhas cósmicas
os detêm
de forma gloriosa.




quinta-feira, 5 de março de 2015

Um primeiro amor

"Fome do que não se come, exatamente.
Sede do que não se vê,completamente.
Falta do que não se sabe, simplesmente.
E para a ausência do que não se traduz:
a poesia.
E o esforço fecundo de dizer o indizível."
                                                        Cel Prado