É sobre não ter ninguém.
É sobre viver em um mundo que lhe atroçoa.
Os sorrisos que salvam uma alma.
As risadas que aliviam olhos perturbados.
" A fome "
Terminou de ler em voz alta para a classe, os últimos versos de seu poema. Não lia para que gostassem ou para que até mesmo ouvissem, fazia aquilo por que era uma mera obrigação escolar.
Escrevia em seu caderno quando sentia falta de conversar com as estrelas, agora desaparecidas no céu esquecido pela cidade.Olhar a lua era seu passatempo.
Mas não conseguia fazer com que tudo que lhe era seu escorregasse pelas suas mãos.
Sentia vontade de buscar. Mas buscar o quê? Não tinha um nome. Algo que já havia se perdido.
No fundo, sentia que sua vida podia ser diferente, mas de um outro modo e tendia a pensar que esse modo estava próximo aos livros, as páginas impressas, e aos escritores mortos. Sentia que não havia vida nos pés que caminhavam juntos aos seus pela calçada de manhã.
Se arrependia do que havia feito e não sabia como voltar para o ponto do qual tudo começara a mudar.
Ela fora desistindo de si para construir uma nova estrada, esta, se encontrava nas vestes sombrias que adentravam em seus olhos e permaneciam lá. Gradualmente, pensava, a velha estrada paralela a qual estava nesse momento instabilíssimo, fora sendo submetida ao vazio, desmanchando-se sob seus pés, pela contribuição desnorteada de suas mãos frenéticas.
E agora como faria para voltar?
Olhava para o horizonte de forma a procurar no infinito universo o seu antigo lar, o seu passado lar.
Esse episódio longo de sua vida podia ser comparado a quando crianças pintavam cascos de jabutis em um gramado verde de um sítio...
Ela se entregou a esses dedos melados de tinta, deixando que pintassem cada compartimento de sua casa, e essa, desde então nunca mais fora a mesma.
As cores de tinta que passavam um ar de normalidade saudável para o resto do mundo,
a adoeciam, não a permitiam respirar.
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