quinta-feira, 30 de julho de 2015

Meia salamandra

Apesar do texto não passar de uma mera tentativa, é de minha ciência que essas palavras hão de sempre permanecer aqui, dentro de mim. Cada dor será desdobrada nesse papel. E se fosse de minha escolha, tais linhas não existiriam. Mas acredito com carinho que, de alguma forma, elas fazem parte de mim. Mais do que como um código de barras, como uma construção. Bem, é provável que fique retornando aqui, para acrescentar novas frases na medida em que minha mente for conseguindo dissolvê-las, de modo que esse texto nunca estará terminado. 

Na nossa história, pai, eu só via esse silêncio ensurdecedor, essas portas despedaçadas no meio, a poeira no chão da casa, e a escuridão infinita que servia como cobertor para o restante das paredes. Mas a existência de algumas cores, pálidas, são reais, não são?
Construí meu cais sozinha, para firmar as margens de nosso relacionamento. Parar criar um limite que a minha vida toda permaneceu impalpável. Para dar fim a fluidez das linhas que me separavam de ti. Durante anos, tentei construí essas muralhas entre nós, sem saber ao certo se as queria prontas, sem saber ao certo se queria finalizá-las, sempre deixando um espaço em branco a ser preenchido por você, que agora pode ser chamado (unicamente) de esperança vã, isso foi um erro. Deixar esses espaços vazios na época só me abriu ainda mais para o seu alcance, para a destruição que sua voz fazia quando tocava em mim. Deixar esses espaços vazios como portas abertas por pura esperança foi um erro demasiado.
Hoje, essas paredes estão finalizadas. E elas me protegem agora, apesar de ainda terem essas marcas dá maré friamente forte.
Hoje, as muralhas estão prontas. E a distância entre nós concretizada.
Eu não queria muitas coisas, uma pausa para me esperar enquanto corríamos na beira do mar, uma pergunta sincera sobre mim, menos silêncio e mais conversas, a aniquilação da fúria descontrolada em troca da fé calma de uma diálogo, uma camisa emprestada e não roubada para dormir no inverno, mais amor e menos guerra, a presença em troca da ausência perene.
Mas eu não sou uma dessas crianças que nunca conheceram seus pais, talvez essa teria sido uma história melhor para nós. Eu te conheci, pai. O pouco que você me permitiu. Hoje tenho em mente a visão da inexistência dessas cicatrizes se você não tivesse ficado por aí. Um corpo sem marcas profundas. Noites inteiras sem urros de dor a serem abafados pelo travesseiro.
Mas até mesmo essas cicatrizes podem ser cobertas por roupas e máscaras. O que não consigo escrever aqui é do que resultou quando nossos universos realmente se confrontaram. Apenas foi mencionada a exterioridade desse desastre de consequências. Não posso falar sobre as coisas fincadas em minha memória, em meu corpo, em minha personalidade. Não consigo falar dos pingos embrulhados que me firmaram, ou das pincelas que mediam minhas ações até hoje. Não posso falar da parte que é sua em meu timão.
Não consigo falar da distorção da imagem sobre mim mesma que você deixou, que você acrescentou a cada palavra cuspida, com seus gritos e gestos descontrolados. Não consigo falar dos medos que me dominam quando as pessoas esperam algo de mim. Não consigo falar da injustiça que sinto quando alguém cobra algo de mim. Não consigo falar do medo da decepção. Assim como não consigo falar dos resquícios desconhecidos e das ameaças deixadas até então.
Obrigada por me dar medos e não me ajudar a solta-los.
Pai, agora você não pode mais me destruir. Eu estou grande.
Nenhuma âncora vai ser jogada por sua causa mais.
Sabe aquela determinação brilhante no olhar? Ela ainda está aqui.
E meus lábios continuam firmemente fechados, estampando o orgulho que sempre esteve comigo durante seus ataques.
Meu nome não é teto para suas vontades, e meu sangue não é permissão para suas atuações.
Meus ouvidos não são obrigados a escutar, e minhas costas podem se virar, sim!
Nas passagens para minhas terras serão colocadas esfinges impetuosas
E nos calabouços do meu castelo só serão permitidas sombras de objetos inanimados.
Seus incêndios serão apagados pelas minhas ondas e nenhuma fumaça chegará aos céus.
Você nunca quis saber minha música preferida, Pai.
Você nunca quis saber porque minha cor preferida era verde, Pai.
Você nunca quis saber porque eu gostava de ler tanto, Pai.
Você nunca me perguntou porque eu escolhi filosofia, Pai.
Você nunca quis saber nada sobre mim.
Minha imagem já estava feita em sua mente antes mesmo de eu nascer, e enquanto eu não fui alguém, enquanto era apenas um bebê, você verdadeiramente me amou, por saber que eu era exatamente do jeito que você queria. Mas você nunca me deu espaço para conhecer quem me tornei. Seus julgamentos sempre foram tampões para esse caminho.
Eu não sei mais discernir a ordem do que aconteceu conosco.
Minha independência te assustava?
Você me assustou quando exigiu duramente meu amor por você. Você tinha medo, Pai? E porque demonstrava tanta raiva?
Depois tudo piorou. E melhorou algumas vezes.
Suas tentativas de roubar meus sorrisos,
suas respostas amarguradas,
seu tom de voz transbordando repúdio,
sua capa fria,
me fizeram desistir, Pai.
Mas ainda não sei porque tanto ódio,
Será que porque era feliz mesmo não estando no caminho que você planejou para mim?
Nossos diminutos contatos não me faziam bem, não lembro a última vez que fizeram.
É por isso que decidi sumir, Pai. Suas pisadas eram muito fortes. 
Foi assim esse mês, e será nos seguintes.
Sem despedidas.
E sinceramente, não estranho que esteja sendo como sempre foi.
Eu, sem você.
Bem vindo ao conjunto dessas pessoas as quais eu não preciso.





















































quarta-feira, 29 de julho de 2015

A liberdade do inverno

Soa estranho em meus ouvidos a imagem desses dias líquidos. Como o mundo pode está nitidamente chorando? Essa chuva eu só sentia dentro de mim. Lá fora, os dias sempre foram mascarados de sol. Onde está o disfarce da dor do mundo agora? Esbarra em mim toda essa realidade esquisita. No verão, os raros dias chuvosos, tão ansiados por mim, eram únicos. Neles, eu me sentia parte do mundo.
A muito tempo atrás fui integrante desse palco de sorrisos, ainda que não completamente, dessa constante afirmação de que estamos bem. Lembro que fingia, ainda quando era criança, para me proteger. Usava a alegria como uma capa de chuva para não espalhar tristeza, e talvez, por ainda não saber lidar com ela.
Sei que não completamente porque na escola, subia numa árvore temida e despercebida por todos, não somente pela altura, mas principalmente pelo seu reflexo sombrio. Sentia certa empatia naquela estrutura excêntrica e asquerosa ao mesmo tempo. Lá em cima, a separação entre mim e os humanos, me curava. Eu não precisava mais fingir que o sangue não escorria. Eu não precisava fingir que não chovia. Eu podia ver através dos muros da escola, e meus olhos brilhavam. Certa vez vi um velhinho atravessando a rua, e ele notou meus olhinhos erguidos junto ao restante de minha cabeça acima da beirada do muro, lembro que ele piscou para mim, e eu de volta, mostrei o melhor sorriso que tinha escondido no olhar. Pronto, aquele era o nosso segredo. A imaginação floria e as minhas máscaras sucumbiam. Conversava com fadinhas e lagartas, habitantes da minha morada. Não me lembro de ir embora de lá. Nenhuma vez.
Será que todos tinham um esconderijo secreto como minha árvore também?
Um lugar onde fosse mais que permitido a própria essência?
Um lugar para lidar com toda a dor sozinhos?Hoje, sei que não se trata de afirmar nada, os rostos estão rodeados de negações. Enquanto negam para o mundo, também negam para si. Vibra nos corpos a necessidade de apresentar uma vida perfeita. Afinal, para que serve os símbolos? Os carros, as profissões estimadas, o dinheiro. *Essa mão invisível que trabalha controlando-nos, mesmo que a empurramos, ultrapassando nossos limites de dor.*A felicidade é quase uma obrigação, e a tristeza é sinônimo de fraqueza. O que é realmente ser feliz?
A felicidade não abarca para mim um verbo constante, nós não somos felizes. Nós estamos felizes. Ela vai, e volta numa parábola perfeitamente saudável ao longo de nossas vidas. Tal como o balanço de todos os outros sentimentos que afloram e morrem dentro de nós.
Por isso, e por outros motivos, permito a transparência me fazer uma visita as vezes, e é então que encaro os olhos surpresos mostrando estar exatamente do jeito que estou. Assim como aqueles sujeitos que não possuem mais força para abotoar o disfarce. Ambos deixamos o sentimento transbordar. Entretanto, os nossos componentes diferem, esses sujeitos fazem isso porque já foram abordados demais pela vida, a vida que lhes arrancou quase todas as cores, a vida que lhes tirou vida. Mas eu não, dominam-me a raiva e a indiferença às opiniões. É o que estou sentindo agora e pronto. Nada mais. Por que não podemos ser estranhos?
* Parafraseando Elliot, personagem da série Mr. Robot.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Carlos Ruiz Zafón

Devido a minha própria incapacidade de escrever um texto único e singular sobre as fabulosas histórias desse escritor, por motivos de pequenez; pois o que sinto por elas é muito maior do que aquilo que conseguiria dissertar; e por motivos de não ter lido todas as obras -ainda-, me conterei aos pequeninos textos que fiz, específicos de cada livro já lido. Mas sabendo, desde já, que tudo isso, provavelmente não passará de um erro, conforme a impossibilidade de transpor as palavras de meu coração para o papel amigo, como disse anteriormente, um erro que provavelmente acarretará em grandes limites inexistentes, e em grandes insuficiências descritas.
Pois bem, o que posso dizer, até agora, é sobre uma leve sensação de transbordamento ao levar a lembrança dessas histórias a minha consciência desvanecida; como uma alga marinha recém-nascida que cresce olhando para as metamorfoses do céu, que cresce olhando para as incontáveis faixas lambidas de ouro deixadas pelo sol longínquo, (faixas que penetravam dois mundos dançando com uma suavidade espantosa), ao mesmo tempo em que sente todo aquele universo aguado lhe preencher; dominada pela paz da imagem que lhe envolve lá de cima, lá de tão longe, mas sentida fortemente pelos seus olhos.
Eu sou essa alga marinha, e a paisagem que vejo de tão longe, a sentindo tão de perto, são as páginas dos seus livros. E a sensação transbordante é só um reflexo de tudo isso.

MARINA. Primeiro livro lido, meu, sem dúvidas, preferido.
Záfon abriu meu coração assim como ventanias abrem portas: num só galope. Depois que li Marina pelos lugares que viajei, fui sentindo impressionada o impacto assustador que esse livro me causou. E só agora me dou conta de que não consigo tirá-lo da cabeça - não somente apenas o término, mas também, enquanto meus olhos perpassavam aquelas linhas escritas pelas suas mãos -. Na medida em que ia lendo desde o primeiro parágrafo até o último, tive a dura e leve sensação de ver meu coração se abrindo e cada palavra cair em direção a um lugar secreto que há muito tempo eu havia transformado em desconhecido dentro de mim. Esse lugar embarca pavores misteriosos, sem rédeas, incontroláveis. Talvez por isso sentira a destruição dolorosa chegar enquanto terminava aquelas últimas páginas do livro... As imagens emergiam lentamente diante dos meus olhos enquanto minha boca engolia aquelas letras. E meus olhos jamais haviam visto tamanha agonia.
Me senti destroçada, arrepiada, perdida. O chão construído pelas minhas mãos desabou. Esse mesmo que havia criado para me esconder dos pensamentos que perambulavam minha mente inquieta. E um terror mágico me inundou... Pude sentir, a flor da pele, a dor da humanidade, a dor de histórias que já foram esquecidas e talvez nunca lidas por alguém, além de quem as viveu. Marina é incrível, é real, é doloroso. E ao mesmo tempo encharcado de uma beleza fantasmagórica inabalável.

O PRÍNCIPE DA NÉVOA.
Terminei de ler o Príncipe da Névoa e novamente, senti aquelas frases grudarem em minha pele. Cada palavra parecia derramar um vapor de tinta em mim, o qual denominarei de tristeza e paralisia. Quase uma resignação inevitável. Ao chegar em casa, tomei um banho, na esperança de que aquelas correntes incessantes de água levassem consigo as frases coladas em meu corpo, relutei. Mas as frases permaneceram sólidas aqui, até agora. E sinto que vão permanecer, pairando-me, por um longo longo longo tempo. Um tempo insustentável. Acredito que a história se trata, sobretudo, de amor. De um amor inimaginável, mágico. Sei bem que todos nós já o sentimos, sem perceber, mas o deixamos escapar, por motivos tão incompreensíveis quanto internos. Fala também, sobre o perdão, sobre a força de se manter vivo, sobre o entendimento mágico, invisível, e silencioso que podemos ter com alguém, e sobre proteção. Se não me engano, quase todos esses sentimentos, são sustentados unicamente, por esse verbo: amar. Qual como no livro, na vida real.




terça-feira, 21 de julho de 2015

Uma manhã nervosa.

Quando botei os pés para fora do retângulo restrito, meus olhos doeram. A luminosidade fria do dia e os movimentos rápidos dos automóveis na avenida me atacaram de repente. Foi como se tivesse dormido esse tempo todo, essa manhã toda. Dormi no mundo das almas mortas. Olhos indiferentes se espalhavam pelas salas curtas, subindo as paredes geladas  e percorrendo os vértices de todos os lugares: saias, ombros de cadeiras, omoplatas, calçados, fichas sem sentido. E eu, com meus olhos de jabuticaba, tão frenéticos e opondo-se ao que restava de mim, ficava torcendo para ver os traços dos lábios daquela moça esboçarem um diminuto sorriso. Um sorriso que eu nunca via. "Perguntei-me como era possível sentir alguém tão distante e, no entanto, poder ler cada dobra de seus lábios"*Podia ver os rostos daquelas pessoas completamente, mas sabia que nunca veria um sorriso em seus lábios em inúmeros deles. Como pode se conhecer um rosto sem essa expressão tardia? Então, uma ideia emergiu de dentro da canastra de meus pensamentos... Talvez eles não quisessem ser conhecidos, talvez eles nem quisessem estar ali, talvez sejam mais máquinas com um único objetivo do que humanos, exatamente. E foi por isso que decidi jogar, no ângulo reto, do canto daquela saleta, as minhas aspirações para espionar. Logo depois disso, devo ter caído num sono profundo, numa paralisia incomum, quando a vida perde o gosto e todas as coisas o seu sabor. Estava no ponto máximo da ausência de graça. E deve ter sido por isso, depois de ter passado aquelas horas das quais nada me lembro mais, que tomei um susto sufocante ao vazar daquele lugar sombrio. Foi como esbarrar numa parede invisível, não uma que todos poderiam sentir ou tocar, uma barreira psicológica, como um choque de vivacidade após tantas mortes, demorei para engolir cada imagem que via e sentia. E o mundo me provou que ainda estava nebulosamente vivo.
Foi no caminho vagaroso para casa, que me resguardei dentro da minha concha azul, imersa em mim, a medida que meus pés pisoteavam, sem querer, nas poças das ruas de barro. E tudo parecia estranhamente normal, quando senti os olhos do ônibus, daquelas pessoas de passagem; foi uma entrada terrivelmente assustadora, e brusca, pois estava completamente muito longe dali, muito longe daquela janela chuvosa e daqueles degraus rachados. Odiei decifrá-los. Odiei esbarrar com os olhares sentados no ônibus. Odiei esbarrar com suas emoções penetrantes. E de alguma forma, eles estremeciam as águas planas de minha alma, causando perturbações no meu comportamento longínquo. Eu queria aquele tempo minúsculo para mim.
Havia uma garota. E ela me olhava de um jeito torto enquanto eu mantinha o olhar na altura dos seus, tentando não andar para trás. Enquanto tentei lhe dizer sobre o véu de frieza que a cobria, "você é só uma criança, todos nós somos, não precisa dessa morbidez. Não precisa me esnobar para se proteger. Você é uma criança, não devia passar por tantas coisas, nem lidar dessa forma com elas. O que aconteceu com você? Não devia achar que precisa dessa capa roxa que apodrece a alegria que há aí dentro, menina"
Entretanto, sei bem, que dificilmente meu olhar a alcançou, somente palavras seriam capazes de fazê-lo, e elas não estavam caminhando comigo nesse fim de manhã. Meu rosto fechado impedia que abrissem minhas portas, eu mantinha o controle do meu organismo vivo sob o céu cinza, voltando para casa.


*Záfon, A sombra do vento. Pág 144.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Isso não é uma poema, é só mais um dia pintado de branco pelas mãos do vazio.

E se todo amor for pouco? 
E se as ondas foram demais para o chão de areia? 
E se o eco for maior que o abismo?
E se a ausência for maior do que presença sentida?
Por longos dias senti esse vazio me preencher, sentia falta de tudo. 
De uma voz, de um segredo, de um olhar compreensivo, de uma dezena de dedos ao lado dos meus, de um braço pra segurar atravessando a rua, de uma madrugada não solitária, de uma companhia pra tudo, quase como uma irmã que nunca tive. 
Precisava me sentir parte desse mundo novamente, e sozinha sei que não conseguiria isso. Mas ao mesmo tempo sentia o medo que me prendia, o medo que me impedia. Mas eu mesma o alimentava todas manhãs, como um cão de estimação, não deixando ninguém se aproximar, afinal, já haviam machucados demais. Era o meu cão que protegia os meus machucados, e o nome dele era Medo. E nem cicatrizados os cortes estavam, o sangue escorria todas as noites embaixo das estrelas. Das brilhantes estrelas inalcançáveis. Será que um dia chegaria lá em cima? pensava eu, como uma grande fã de As crônicas de Nárnia, onde as pessoas já velhas demais tornam-se estrelas no céu absoluto. Com os olhinhos meio juntos, próximos da testa, e a cabeça torta virada para os céus. 
Por muito tempo senti essa ausência rachando meu céu, por muito tempo vi ondas agarrarem a distância, e prendê-la ali, longe de mim. A distância enorme que me separava da vida,ou melhor, do que era vivo. 
E a saudade do desconhecido percorria em minhas veias como a água da chuva corre pelas ruas arenosas. 
E o meu sangue jorrava para fora de mim  escorrendo e se desmanchando como as lágrimas do céu caiam lentamente pela minha janela 
Mas isso foi a muito tempo atrás, a muito tempo atrás...
Pelo menos eu pensei que havia sido, até sentir uma alfinetada dela hoje, dessa ausência repentina que me toca de forma lenta com a ponta de seus dedos frios.A solidão que aperta meu peito e me sufoca. 
Será mesmo que sua presença não foi suficiente? Pois foi com a sua jangada que os dias clarearam. Somente depois da sua voz e do seu amor, a quem abri a porta vagarosamente para adentrar, é que me senti cheia.
Então, o que está acontecendo,amor? 
Por que a corrente fria do mar me atingiu novamente hoje? 
Por que senti a falta da vida hoje?
Eu me lembro quando 
Você apareceu e jorrou em mim todos esses lenços coloridos, esfumando os vapores verdes,amarelos,vermelhos e azuis a minha volta, em minha borda, dentro de mim. E foi como se tudo tivesse se enxugado.
Eu me sentia curada

Mas e agora? 
O que aconteceu? 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

4:48 A.M

Hoje, dormi na praia.
Tomei um banho de mar.
e me afoguei na fumaça que penetrava meus pulmões.
Quando cheguei em casa,
parei diante desse retângulo que me dá luz, e observei, escrevendo isto aqui:


A cidade dorme.
As ruas estão densas
pelo profundo silêncio que se desmancha sob elas.
Os galhos balançam frios e suavemente me provando que o mundo,
não morreu.


Enquanto o vento frio esboça meu rosto, os pássaros cantam sutilmente para as calçadas vazias.
E o fim do céu pintado de azul bebê recebe ainda pequenos pontinhos estrelados
ao mesmo tempo em que
o seu início, permanece amarelado
abordado pelos primeiros passos dos sol.


A janela domou meus olhos tão penetráveis
Mas meu corpo se sente distante
pois ainda carrega o mar em seu peito


Eu não te deixei, Mar.
Te trouxe junto a mim.
Seu cheiro ainda está em meus cabelos salgados,
e sua areia ainda ama minha pele peguenta.


O incrível se mostra aos meus olhos
quando vejo que a imagem a pouco descrita
está mudando,
no tempo do balanço dos meus cílios.


Como é rápido o amanhecer...


Daí,
Todo o cenário já não pode mais ser sentido da mesma forma.
Tudo passa a ter um novo aspecto, cada vez menos espectral.
Por causa do dia, que está crescendo.





















NA PRAIA

Nasce as luzes do dia que velam o grande mar
Enquanto as coisas morrem dentro de mim
Ando alguns passos enterrando meus pequeninos dedos na areia da praia
E sinto minhas mãos pegajosas pelo sabor das ondas ...

Vejo o medo configurar-se como um braço estendido a minha frente...
E as ondas balançam como meus cabelos: cheirando a beirada de uma liberdade almejada
Sinto o azul do céu escorrer e cair feito pétalas sob meu corpo frio
Vou sendo vestida lentamente por essas águas que começam por tocar meus pés
E a nudez evapora suavemente de mim
Enquanto uma energia salpicada estende-se não só pelos meus braços e pernas mas pelo meu
Grande
Insensível
Branco
E vazio
coração
A violência é anunciada pelos movimentos virulentos do mar
E o cheiro de suspense estanca no ar
É a minha deixa?

sábado, 11 de julho de 2015

Findam-se os dias, então.

Um passado não tão distante me cerca hoje, com os olhos voltados para trás ainda posso sentir a dor como lembrança desses tortuosos dias. Sempre foi difícil escrever sobre essas águas, ainda mais quando me encontrava sob elas. E talvez essa seja a primeira vez que largo essas sílabas nesta folha em branco, consciente do meu ato. Entretanto, faço isso coberta por um medo que formiga meus fins: a pontas dos meus dedos, de todos eles. O medo de reviver seriamente o que me aconteceu. O medo de mergulhar numa profundidade nebulosa e aturdida demais para mim, mesmo sendo minha. O medo de adentrar um passado e não conseguir mais sair dele.
Ainda me resta algumas dúvidas de como fui parar ali. Será que errei as coordenadas por dar tanta atenção ao horizonte? Ou simplesmente fui pega por um redemoinho inexorável? Vítima ou protagonista?
Talvez os dois demais. Uma série de ondas me atingiu, ondas que jamais foram ou serão profundamente iguais a quaisquer outras, porque todas são individualmente assim, únicas. Tanto para o mar quando para o marinheiro.
Mas não foi tão rápido tue tudo aconteceu, não é que nem as dificuldades breves dos personagens dos filmes ou livros infantis, não é que vá aparecer um solução no final. O momento durou mais. O caos por baixo dos gritos e alarmes procede-se lentamente. Até o ponto em que você não sabe mais se deve imaginar um fim. Exceto o seu.
Sempre pensei nesse específico momento: a morte. Mas hoje decidi cortar as digressões e guarda-las para um outro texto, quem sabe, um tanto menos cheio. Portanto, indo direto àquelas perguntas que me visitam por vezes:
Qual foi o último pensamento de um suicida?
Quais foram as últimas palavras pensadas por uma mente que sabe que não vai mais existir em poucos minutos?
Quais são os últimos pensamentos de um ser que sabe estar a beira do abismo eterno?
Eles aceitam?
Ou simplesmente morrem com uma súplica de vida nos olhos?
Ou simplesmente morrem com a esperança repousada nos lábios?
Nesses dias fechados meus, pelo menos sei dizer que houveram pausas. Poucas, mas sim.
Pausas incríveis e inacessíveis. Cobertas de silêncio atingindo a minha não sólida alma.
Como pequeninas gotas de chuva em um chão rachado pelo deserto vazio.
Como ver o mar.
Na brecha de uma solidão imensa.
E a chegada do fim das pausas, me torpecia.
Eu sabia, acontecia rapidamente.
Como um relâmpago nos céus. Não precisava de muita coisa pra acontecer.
Meu coração em pânico, batia forte. Logo, meus pensamentos ficavam embrulhados. Eu não sabia como parar. Como parar a dor familiar que emergia dentro de mim. Por fim, mordia os lábios na tentativa vã de prender o sofrimento que ia se aflorando, de prender o sofrimento para não se expandir pelo resto de seu corpo, para não cair como lágrimas em cima das suas bochechas avermelhadas.
Existe uma história romântica,linda sobre um pequeno menino, que acredita na volta de um cometa quando todos os cientistas e pesquisadores afirmam a impossibilidade do fato, e algumas vezes esse menino até já esteve entre a maioria das pessoas desacreditadas, mas ele amava o cometa, e precisava acreditar no dia em que o cometa chegaria para trazer de volta a cor, a arte e a vida para ele.
Eu fui esse menino no passado, e acho que sempre serei.
Não que esses dias acabaram quando saí da escola,
quando não tive mais que ver tudo e todos acreditando no que eu achava um erro,
quando não tive mais que erguer forças de onde não haviam para levantar de manhã,
quando não tive mais que usar a mesma roupa todos os dias,
quando não tive mais que ser proibida de expressão,
quando não tive mais forças esmagando minha paixão,quando não tive mais que escutar no abandono frases caídas de podridão,
quando não tive mais que ver as consequências e os machucados nas pessoas desse erro escolar.
Não, não acabaram quando meus pés abandonaram aquele lugar...


Ainda ficou aqui, toda a dor.


Mas veio o tempo que não existia
e junto com ele a liberdade,
e a chuva,
e as flores que nasceram,
e, as flores que já tinham nascido.


E assim, esses dias beirados finalmente acabaram.



















segunda-feira, 6 de julho de 2015

Assumindo um medo

Falar de mim com frases simples não dá, sou medrosa.
Falar de mim,
abertamente
claramente
simplesmente não
não dá.
Vou encurtando as frases
e deixando o silêncio chegar.
Falar,
é construir uma ideia
é se autonomar
é ser.
Eu?
Eu não sou,
obviamente e internamente,
eu não sou.
E é por isso que me escondo dentro dessas roupas poéticas.
Não dá para me abrir.

Uma história, a minha história.

Vamos parar, tá bom?


Vamos parar porque por aqui já chega.
Vamos parar porque minha alma já não aguenta mais.
Vamos parar porque eu estou cansada.


Sou um rua, pequenina e esburacada.
Onde todos os postes erguidos escolheram se apagar.
Cansada de buscar luzes.
Cansada de estar na escuridão.


Vamos parar porque a rua, não tem que ter explicação.
As respostas deveriam estar estampadas nas causas,
As respostas deveriam estar estampadas nos postes,
As respostas deveriam estar estampadas nos corpos,
A rua pode até saber as respostas. Mas ela não merece ser dita.


Vamos parar porque
Não faz sentido os postes perguntarem a rua porque ela está chorosa.
Não faz sentido os postes estranharem a rua desfigurada.
Não faz sentido os postes estranharem os arranhões.




Não faz sentido os postes escurecerem a rua,
nem perguntarem a ela o porque de está escura.




E a rua, desde que nasceu, trava essa luta para se cobrir.
A rua já tentou ser surda.
A rua já quis se esconder.
A rua já pensou em se encolher.
A rua já tentou desaparecer.
A rua quis não ser calçada.
A rua pensou em morrer.
Mas ninguém sabe, porque a rua,
é silenciosa.


Todos os dias,
ela tenta se proteger.
Todos os dias,
ela tenta se consertar, se reerguer.


A rua,
não quer ser um lugar de passagem,
não quer ser esquecida,
não quer ser não lembrada.
A rua,
quer ter alguém,
quer ver vagalumes,
quer ter um rosto pra conversar.


A rua chama,
mas ninguém, ela tem.


Vó?
Vô?
Onde vocês estão?


Eu quero
uma casa no domingo a tarde,
um bolo quentinho,
e um carinho na cadeira de balanço.
que não existe.

Não é?
Não é?!


Mas continuo procurando...


Vó?
Vô?
Onde vocês estão?


E a rua, e eu, imaginamos dois velhinhos se desvanecendo no ar...


Nós cansamos. Definitivamente cansamos.


Vamos parar
sem mais vírgulas,
sem mais incertezas,
sem mais perguntas,
Apenas vamos parar.