Quando botei os pés para fora do retângulo restrito, meus olhos doeram. A luminosidade fria do dia e os movimentos rápidos dos automóveis na avenida me atacaram de repente. Foi como se tivesse dormido esse tempo todo, essa manhã toda. Dormi no mundo das almas mortas. Olhos indiferentes se espalhavam pelas salas curtas, subindo as paredes geladas e percorrendo os vértices de todos os lugares: saias, ombros de cadeiras, omoplatas, calçados, fichas sem sentido. E eu, com meus olhos de jabuticaba, tão frenéticos e opondo-se ao que restava de mim, ficava torcendo para ver os traços dos lábios daquela moça esboçarem um diminuto sorriso. Um sorriso que eu nunca via. "Perguntei-me como era possível sentir alguém tão distante e, no entanto, poder ler cada dobra de seus lábios"*Podia ver os rostos daquelas pessoas completamente, mas sabia que nunca veria um sorriso em seus lábios em inúmeros deles. Como pode se conhecer um rosto sem essa expressão tardia? Então, uma ideia emergiu de dentro da canastra de meus pensamentos... Talvez eles não quisessem ser conhecidos, talvez eles nem quisessem estar ali, talvez sejam mais máquinas com um único objetivo do que humanos, exatamente. E foi por isso que decidi jogar, no ângulo reto, do canto daquela saleta, as minhas aspirações para espionar. Logo depois disso, devo ter caído num sono profundo, numa paralisia incomum, quando a vida perde o gosto e todas as coisas o seu sabor. Estava no ponto máximo da ausência de graça. E deve ter sido por isso, depois de ter passado aquelas horas das quais nada me lembro mais, que tomei um susto sufocante ao vazar daquele lugar sombrio. Foi como esbarrar numa parede invisível, não uma que todos poderiam sentir ou tocar, uma barreira psicológica, como um choque de vivacidade após tantas mortes, demorei para engolir cada imagem que via e sentia. E o mundo me provou que ainda estava nebulosamente vivo.
Foi no caminho vagaroso para casa, que me resguardei dentro da minha concha azul, imersa em mim, a medida que meus pés pisoteavam, sem querer, nas poças das ruas de barro. E tudo parecia estranhamente normal, quando senti os olhos do ônibus, daquelas pessoas de passagem; foi uma entrada terrivelmente assustadora, e brusca, pois estava completamente muito longe dali, muito longe daquela janela chuvosa e daqueles degraus rachados. Odiei decifrá-los. Odiei esbarrar com os olhares sentados no ônibus. Odiei esbarrar com suas emoções penetrantes. E de alguma forma, eles estremeciam as águas planas de minha alma, causando perturbações no meu comportamento longínquo. Eu queria aquele tempo minúsculo para mim.
Havia uma garota. E ela me olhava de um jeito torto enquanto eu mantinha o olhar na altura dos seus, tentando não andar para trás. Enquanto tentei lhe dizer sobre o véu de frieza que a cobria, "você é só uma criança, todos nós somos, não precisa dessa morbidez. Não precisa me esnobar para se proteger. Você é uma criança, não devia passar por tantas coisas, nem lidar dessa forma com elas. O que aconteceu com você? Não devia achar que precisa dessa capa roxa que apodrece a alegria que há aí dentro, menina"
Entretanto, sei bem, que dificilmente meu olhar a alcançou, somente palavras seriam capazes de fazê-lo, e elas não estavam caminhando comigo nesse fim de manhã. Meu rosto fechado impedia que abrissem minhas portas, eu mantinha o controle do meu organismo vivo sob o céu cinza, voltando para casa.
*Záfon, A sombra do vento. Pág 144.
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