Soa estranho em meus ouvidos a imagem desses dias líquidos. Como o mundo pode está nitidamente chorando? Essa chuva eu só sentia dentro de mim. Lá fora, os dias sempre foram mascarados de sol. Onde está o disfarce da dor do mundo agora? Esbarra em mim toda essa realidade esquisita. No verão, os raros dias chuvosos, tão ansiados por mim, eram únicos. Neles, eu me sentia parte do mundo.
A muito tempo atrás fui integrante desse palco de sorrisos, ainda que não completamente, dessa constante afirmação de que estamos bem. Lembro que fingia, ainda quando era criança, para me proteger. Usava a alegria como uma capa de chuva para não espalhar tristeza, e talvez, por ainda não saber lidar com ela.
Sei que não completamente porque na escola, subia numa árvore temida e despercebida por todos, não somente pela altura, mas principalmente pelo seu reflexo sombrio. Sentia certa empatia naquela estrutura excêntrica e asquerosa ao mesmo tempo. Lá em cima, a separação entre mim e os humanos, me curava. Eu não precisava mais fingir que o sangue não escorria. Eu não precisava fingir que não chovia. Eu podia ver através dos muros da escola, e meus olhos brilhavam. Certa vez vi um velhinho atravessando a rua, e ele notou meus olhinhos erguidos junto ao restante de minha cabeça acima da beirada do muro, lembro que ele piscou para mim, e eu de volta, mostrei o melhor sorriso que tinha escondido no olhar. Pronto, aquele era o nosso segredo. A imaginação floria e as minhas máscaras sucumbiam. Conversava com fadinhas e lagartas, habitantes da minha morada. Não me lembro de ir embora de lá. Nenhuma vez.
Será que todos tinham um esconderijo secreto como minha árvore também?
Um lugar onde fosse mais que permitido a própria essência?
Um lugar para lidar com toda a dor sozinhos?Hoje, sei que não se trata de afirmar nada, os rostos estão rodeados de negações. Enquanto negam para o mundo, também negam para si. Vibra nos corpos a necessidade de apresentar uma vida perfeita. Afinal, para que serve os símbolos? Os carros, as profissões estimadas, o dinheiro. *Essa mão invisível que trabalha controlando-nos, mesmo que a empurramos, ultrapassando nossos limites de dor.*A felicidade é quase uma obrigação, e a tristeza é sinônimo de fraqueza. O que é realmente ser feliz?
A felicidade não abarca para mim um verbo constante, nós não somos felizes. Nós estamos felizes. Ela vai, e volta numa parábola perfeitamente saudável ao longo de nossas vidas. Tal como o balanço de todos os outros sentimentos que afloram e morrem dentro de nós.
Por isso, e por outros motivos, permito a transparência me fazer uma visita as vezes, e é então que encaro os olhos surpresos mostrando estar exatamente do jeito que estou. Assim como aqueles sujeitos que não possuem mais força para abotoar o disfarce. Ambos deixamos o sentimento transbordar. Entretanto, os nossos componentes diferem, esses sujeitos fazem isso porque já foram abordados demais pela vida, a vida que lhes arrancou quase todas as cores, a vida que lhes tirou vida. Mas eu não, dominam-me a raiva e a indiferença às opiniões. É o que estou sentindo agora e pronto. Nada mais. Por que não podemos ser estranhos?
* Parafraseando Elliot, personagem da série Mr. Robot.
Fantástico! Sério, isso é literatura clássica, sonetos, é poesia direta, direcionada pra alma. "Onde está o disfarce da dor do mundo agora?", "Um lugar pra lidar com com toda dor sozinho"," fui integrante desse palco de sorrisos." - Eu vou plagiar isso pra mim, quero nem saber.
ResponderExcluirBjss!
Ismar.
kkkkkkkkkkkk, lindo :3
ResponderExcluirBem, pode ficar a vontade, não sou dona de nada que escrevo. (:
Também adoro teus textos, e esses comentários são ótimos para alimentar o ego kkkkk