Um passado não tão distante me cerca hoje, com os olhos voltados para trás ainda posso sentir a dor como lembrança desses tortuosos dias. Sempre foi difícil escrever sobre essas águas, ainda mais quando me encontrava sob elas. E talvez essa seja a primeira vez que largo essas sílabas nesta folha em branco, consciente do meu ato. Entretanto, faço isso coberta por um medo que formiga meus fins: a pontas dos meus dedos, de todos eles. O medo de reviver seriamente o que me aconteceu. O medo de mergulhar numa profundidade nebulosa e aturdida demais para mim, mesmo sendo minha. O medo de adentrar um passado e não conseguir mais sair dele.
Ainda me resta algumas dúvidas de como fui parar ali. Será que errei as coordenadas por dar tanta atenção ao horizonte? Ou simplesmente fui pega por um redemoinho inexorável? Vítima ou protagonista?
Talvez os dois demais. Uma série de ondas me atingiu, ondas que jamais foram ou serão profundamente iguais a quaisquer outras, porque todas são individualmente assim, únicas. Tanto para o mar quando para o marinheiro.
Mas não foi tão rápido tue tudo aconteceu, não é que nem as dificuldades breves dos personagens dos filmes ou livros infantis, não é que vá aparecer um solução no final. O momento durou mais. O caos por baixo dos gritos e alarmes procede-se lentamente. Até o ponto em que você não sabe mais se deve imaginar um fim. Exceto o seu.
Sempre pensei nesse específico momento: a morte. Mas hoje decidi cortar as digressões e guarda-las para um outro texto, quem sabe, um tanto menos cheio. Portanto, indo direto àquelas perguntas que me visitam por vezes:
Qual foi o último pensamento de um suicida?
Quais foram as últimas palavras pensadas por uma mente que sabe que não vai mais existir em poucos minutos?
Quais são os últimos pensamentos de um ser que sabe estar a beira do abismo eterno?
Eles aceitam?
Ou simplesmente morrem com uma súplica de vida nos olhos?
Ou simplesmente morrem com a esperança repousada nos lábios?
Nesses dias fechados meus, pelo menos sei dizer que houveram pausas. Poucas, mas sim.
Pausas incríveis e inacessíveis. Cobertas de silêncio atingindo a minha não sólida alma.
Como pequeninas gotas de chuva em um chão rachado pelo deserto vazio.
Como ver o mar.
Na brecha de uma solidão imensa.
E a chegada do fim das pausas, me torpecia.
Eu sabia, acontecia rapidamente.
Como um relâmpago nos céus. Não precisava de muita coisa pra acontecer.
Meu coração em pânico, batia forte. Logo, meus pensamentos ficavam embrulhados. Eu não sabia como parar. Como parar a dor familiar que emergia dentro de mim. Por fim, mordia os lábios na tentativa vã de prender o sofrimento que ia se aflorando, de prender o sofrimento para não se expandir pelo resto de seu corpo, para não cair como lágrimas em cima das suas bochechas avermelhadas.
Existe uma história romântica,linda sobre um pequeno menino, que acredita na volta de um cometa quando todos os cientistas e pesquisadores afirmam a impossibilidade do fato, e algumas vezes esse menino até já esteve entre a maioria das pessoas desacreditadas, mas ele amava o cometa, e precisava acreditar no dia em que o cometa chegaria para trazer de volta a cor, a arte e a vida para ele.
Eu fui esse menino no passado, e acho que sempre serei.
Não que esses dias acabaram quando saí da escola,
quando não tive mais que ver tudo e todos acreditando no que eu achava um erro,
quando não tive mais que erguer forças de onde não haviam para levantar de manhã,
quando não tive mais que usar a mesma roupa todos os dias,
quando não tive mais que ser proibida de expressão,
quando não tive mais forças esmagando minha paixão,quando não tive mais que escutar no abandono frases caídas de podridão,
quando não tive mais que ver as consequências e os machucados nas pessoas desse erro escolar.
Não, não acabaram quando meus pés abandonaram aquele lugar...
Ainda ficou aqui, toda a dor.
Mas veio o tempo que não existia
e junto com ele a liberdade,
e a chuva,
e as flores que nasceram,
e, as flores que já tinham nascido.
E assim, esses dias beirados finalmente acabaram.
Poético, Pessimista. Poesia, sim, PURA POESIA!!!
ResponderExcluirInteressante que eu nunca vi ninguém misturar prosa lírica com poesia dessa forma, (exceção a de literatura ) Mas estou falando de Prosa.
Fantástico!
Imagino que isso se encaixe no que chamam de literatura...
ResponderExcluirMas de uma coisa eu não tenho dúvidas: isso é arte!