Na nossa história, pai, eu só via esse silêncio ensurdecedor, essas portas despedaçadas no meio, a poeira no chão da casa, e a escuridão infinita que servia como cobertor para o restante das paredes. Mas a existência de algumas cores, pálidas, são reais, não são?
Construí meu cais sozinha, para firmar as margens de nosso relacionamento. Parar criar um limite que a minha vida toda permaneceu impalpável. Para dar fim a fluidez das linhas que me separavam de ti. Durante anos, tentei construí essas muralhas entre nós, sem saber ao certo se as queria prontas, sem saber ao certo se queria finalizá-las, sempre deixando um espaço em branco a ser preenchido por você, que agora pode ser chamado (unicamente) de esperança vã, isso foi um erro. Deixar esses espaços vazios na época só me abriu ainda mais para o seu alcance, para a destruição que sua voz fazia quando tocava em mim. Deixar esses espaços vazios como portas abertas por pura esperança foi um erro demasiado.
Hoje, essas paredes estão finalizadas. E elas me protegem agora, apesar de ainda terem essas marcas dá maré friamente forte.
Hoje, as muralhas estão prontas. E a distância entre nós concretizada.
Eu não queria muitas coisas, uma pausa para me esperar enquanto corríamos na beira do mar, uma pergunta sincera sobre mim, menos silêncio e mais conversas, a aniquilação da fúria descontrolada em troca da fé calma de uma diálogo, uma camisa emprestada e não roubada para dormir no inverno, mais amor e menos guerra, a presença em troca da ausência perene.
Mas eu não sou uma dessas crianças que nunca conheceram seus pais, talvez essa teria sido uma história melhor para nós. Eu te conheci, pai. O pouco que você me permitiu. Hoje tenho em mente a visão da inexistência dessas cicatrizes se você não tivesse ficado por aí. Um corpo sem marcas profundas. Noites inteiras sem urros de dor a serem abafados pelo travesseiro.
Mas até mesmo essas cicatrizes podem ser cobertas por roupas e máscaras. O que não consigo escrever aqui é do que resultou quando nossos universos realmente se confrontaram. Apenas foi mencionada a exterioridade desse desastre de consequências. Não posso falar sobre as coisas fincadas em minha memória, em meu corpo, em minha personalidade. Não consigo falar dos pingos embrulhados que me firmaram, ou das pincelas que mediam minhas ações até hoje. Não posso falar da parte que é sua em meu timão.
Não consigo falar da distorção da imagem sobre mim mesma que você deixou, que você acrescentou a cada palavra cuspida, com seus gritos e gestos descontrolados. Não consigo falar dos medos que me dominam quando as pessoas esperam algo de mim. Não consigo falar da injustiça que sinto quando alguém cobra algo de mim. Não consigo falar do medo da decepção. Assim como não consigo falar dos resquícios desconhecidos e das ameaças deixadas até então.
Obrigada por me dar medos e não me ajudar a solta-los.
Pai, agora você não pode mais me destruir. Eu estou grande.
Nenhuma âncora vai ser jogada por sua causa mais.
Sabe aquela determinação brilhante no olhar? Ela ainda está aqui.
E meus lábios continuam firmemente fechados, estampando o orgulho que sempre esteve comigo durante seus ataques.
Meu nome não é teto para suas vontades, e meu sangue não é permissão para suas atuações.
Meus ouvidos não são obrigados a escutar, e minhas costas podem se virar, sim!
Nas passagens para minhas terras serão colocadas esfinges impetuosas
E nos calabouços do meu castelo só serão permitidas sombras de objetos inanimados.
Seus incêndios serão apagados pelas minhas ondas e nenhuma fumaça chegará aos céus.
Você nunca quis saber minha música preferida, Pai.
Você nunca quis saber porque minha cor preferida era verde, Pai.
Você nunca quis saber porque eu gostava de ler tanto, Pai.
Você nunca me perguntou porque eu escolhi filosofia, Pai.
Você nunca quis saber nada sobre mim.
Minha imagem já estava feita em sua mente antes mesmo de eu nascer, e enquanto eu não fui alguém, enquanto era apenas um bebê, você verdadeiramente me amou, por saber que eu era exatamente do jeito que você queria. Mas você nunca me deu espaço para conhecer quem me tornei. Seus julgamentos sempre foram tampões para esse caminho.
Eu não sei mais discernir a ordem do que aconteceu conosco.
Minha independência te assustava?
Você me assustou quando exigiu duramente meu amor por você. Você tinha medo, Pai? E porque demonstrava tanta raiva?
Depois tudo piorou. E melhorou algumas vezes.
Suas tentativas de roubar meus sorrisos,
suas respostas amarguradas,
seu tom de voz transbordando repúdio,
sua capa fria,
me fizeram desistir, Pai.
Mas ainda não sei porque tanto ódio,
Será que porque era feliz mesmo não estando no caminho que você planejou para mim?
Nossos diminutos contatos não me faziam bem, não lembro a última vez que fizeram.
É por isso que decidi sumir, Pai. Suas pisadas eram muito fortes.
Foi assim esse mês, e será nos seguintes.
Sem despedidas.
E sinceramente, não estranho que esteja sendo como sempre foi.
Eu, sem você.
Bem vindo ao conjunto dessas pessoas as quais eu não preciso.
Sem despedidas.
E sinceramente, não estranho que esteja sendo como sempre foi.
Eu, sem você.
Bem vindo ao conjunto dessas pessoas as quais eu não preciso.

(...)
ResponderExcluirSem palavras.
Eu não sei o que dizer. E não me refiro a estar perplexa diante das suas palavras bonitas, não é isso. Falo da delicadeza e da dor contida nisso tudo que você escreveu que me deixaram muito próxima de não saber o que sentir. Esse contraste me fez pensar nos momentos que vivo com o meu pai, das exigências e ofenças que sempre contribuiram para que eu me tornasse nessa pessoa indefinida, cheia de medos e vícios. Aí eu chorei. Sério mesmo, mas já estou recuperada desse choro e dos outros ainda estou a meio caminho. Obrigada por dividir seus pensamentos com as outras que pessoas que não são você e obrigada pela sutileza de sempre.
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