Não era propriamente a soma desses fatos que me deixavam mais à vontade no café, mas principalmente, todas as paredes vinho avermelhadas serem cercadas por quadros fotográficos de cor preta e branca. Minha semelhança com essas figuras incolores era maior do que com as pessoas de carne e osso ao meu redor. Chegava até a achar que a imagem dessas pessoas já mortas, exalavam mais vida no balanço dos seus traços - capturados pela câmera - do que muitas outras que meu corpo chegara a conviver até então. Seus olhares não evasivos, alcançavam minha alma e seus gestos cheios de carinho antigo me convidavam para sermos amigos. Me via pertencendo àquelas pessoas principalmente porque nossos limites de relações humanas eram meras observações diárias. Sentia em cada milímetro de meu corpo que aquelas pessoas me entendiam, e que eu estava presa ao mundo delas, mesmo estando fisicamente fora dele.
As vezes, podia ver o presente nos quadros acontecendo. Podia ver seus movimentos antes e depois do clique fotográfico, podia ver o tempo transcorrendo pelos momentos de suas vidas já terminadas - quando ouvi uma mulher sentada na mesa 11, a qual devia ter a mesma idade que a minha, dizendo para uma moça, que a julgar pela aparência, provavelmente devia ser sua filha: Não acredito! Essa cara de novo? O que que é difícil na sua vida? Vamos, me diga! Você não precisa fazer nada, não precisa trabalhar, nem pagar as contas, sua única obrigação é estudar! Isso é preguiça e muita má vontade. Não me venha com explicações mal feitas.
Quando ouvi essa fala, imediatamente fui reportada para uma lembrança de meus tempos no colégio: era um dia claro, e eu não sabia quem queria ser. Não profissionalmente, pessoalmente. Só estava ruminando(tentando aceitar) a ideia de que precisava ir a escola, quando tudo que precisava era ver o mar para ir em busca de respostas que não existiam em livros didáticos ou nos professores obcecados pelo vestibular. Tudo que precisava era transformar aquela nuvem de negror estacionada em minha mente, carregada de problemas, e joga-la onde o vai-e-vem das águas pudesse lavar. E assim toda a escuridão escorreria para misturar-se com o azul do mar.
Tudo que precisava era parar de chover. Queria escutar minhas aflições encharcadas de interrogações e não ter que guarda-las mornas numa pequena caixinha para ir a escola.
Além disso, tinha o uniforme. Não podia escolher as roupas escuras nem as frases que iam ficar estampadas sobre mim. Meus pincéis foram presos pelas normas da escola.
Foi quando, caminhando mais morta do que viva, para ir ao banheiro escovar os dentes antes de partir, surgiu uma ideia. Eu, que nunca usava maquiagem, contornei meus olhos com a escuridão do lápis de olho emprestado da minha mãe. Aquela era a forma de libertar meus gritos sufocados pelas exigências rigorosas do dia a dia. Aquele lápis, virou o meu pincel corporal. E eu, mais quadro meu, do que de museu, fiquei exatamente com a cor que precisava estar. Sem vedações.
Quando cheguei na escola, o mundo inteiro estranhou. Mas eu não, a diferença não era muita para mim, podia até ser para elas a primeira vez que me viam assim, contudo, tal escuridão já virara familiar em mim. Sem ninguém perceber, a infinitude negra já apertava minha minha alma solitária há meses. Agora, seu nome só mudara de oculta para explícita.
Num instante, estava de volta ao café, pensando na quantidade de coisas que aquela mãe ignorava sobre a sua filha. Ela esquecia que normalmente regiam a mente passagens, transformações e conflitos internos. E que, não é apenas por ser de menor que o motivo da tristeza é descartável, insignificante, banal. Pensei que talvez, se ela tentasse entender a forma como sua filha via o mundo e aqueles pensamentos que compunham sua personalidade, invés de apenas reclamar das obrigações não feitas, seria melhor.
Tentei jogar um olhar compreensivo e um sorriso de quem entende para o rosto impaciente e decepcionado da garota. Quando ela viu, seu semblante primeiro estranhou, depois me olhou sério, até que pude ver o movimentos dos lábios para o lado fazendo brotar as primeiras sementes de um -quem sabe-futuro sorriso.
Acho que ela entendeu que eu a compreendia, pensei levantando para ir embora.
Sai do café com a sensação de uma cor preta se formando sobre minhas pálpebras e com a mente ainda nas fotografias penduradas.
Comecei a ler e pelo título estava hesitante, "cor que pousava...", de início achei bem apelativo, o título é meio apelativo. Mas dai quando vi estava na metade do texto, dessa forma, me contextualizando, quando vi estava imaginando os personagens, quando vi estava sentindo, quando vi estava chorando e quando terminei me vi de outra forma, e eu não estou sendo apelativo em dizer que esse conto, por ser rápido, simples e lindo É PERFEITO! E tudo nele, principalmente o título. hehe
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