O som emergiu lenta e profundamente como o sol que nasce por detrás das montanhas. Expandindo-se muito mais longe do aquilo que meu olhar pudia alcançar e do que meu corpo podia sentir. Mesmo assim, por causa da música, meu corpo paralisou. Deixei que o som me adentrasse silenciosamente como um corpo que deixa a água do oceano o preencher, à deriva de ações que não eram suas, mas da natureza que compunha o universo. Só foi quando me senti parte dela, dessa grande natureza, que parei para sentir as transformações que aconteciam naquele momento dentro de mim, fechando o meu corpo em mim, me englobando até o fim, até o momento final em que transcendi tudo aquilo que me compusera minutos antes, até o momento em que me vi transformar em outro e mais novo eu, deixando minha identidade antiga para trás.
São poucos os momentos que você se sente sincronizado com o mundo. Quando olho ao meu redor, me sinto em cada coisa que vejo tão ao mesmo tempo, em que as sinto dentro de mim. O movimento ondular do véu que cobre o prédio em construção-lá fora-, o balanço da toalha branca sobre a mesa-aqui dentro-, conversam silenciosamente comigo. Os tecidos incorporaram a alma das ventanias, e é por meio dela, que se movem.
A escuridão não é mais algo que lhe amedronta, tornou-se -apenas- algo incompreensível. Difícil, e quase estranho de se compreender.
Se torna presente, a falta da noção dos lados internos e externos a você, assim como também desaparece a linha, a ideia e a imagem que te separam do mundo.
Me encontro lá fora.
Me imagino como um dente de leão que flutua pela cidade com meus pés de bailarina. Eu estou feliz e meu corpo balança entregue a essa camada na atmosfera que começa a surgir -não sei como- em meus ouvidos. Pela música que toca.
Nada pode mudar esse momento. Não é possível reconhecer meus sentimentos tristes aqui. Apenas a morte de quem eu fui, minutos atrás. Antes do início da música.
Chegou o momento agora,em que na procura da escuridão e da cegueira, minhas pálpebras -em reverência- começam a se fechar, lentamente. Centenas de explosões acontecem aqui. Pois a porta para toda essa avalanche de sentimentos não está naquilo que meus olhos alcançarão, mas sim, naquele único som que meus ouvidos conseguem ouvir.
E, com toda essa ausência de imagens que a cegueira escolhida me trás, posso ouvir sem entraves, o que a música me faz.
Me dando a vez de sentir aquilo que grita, emerge e salpica dentro de mim.
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