segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Era pra ser um dia tranquilo...

Um homem deitado no chão esfarelado
de tinta marrom
em baixo de uma árvore de pele marrom
seu corpo camuflado também era de cor marrom
O homem dormia ali
permanecia incrustado nas raízes rechonchudas
Eu o notei
mas o homem nem sentiu o meu olhar 
ele estava ali 
deitado parado
talvez só ali
As curvas do seu corpo somavam-se as elevações das ramificações arbóreas
que se somavam com o chão escuro
Aquele era o seu mundo e ninguém o tocava
Meus olhos cheios de ousadia seguiam as ondas
do que parecia um só mar
na tentativa de transpor aquela barreira
invisível
chegar ao coração daquilo que não poderia ser chamado mais de homem.
Foi a miscelânea mais...
miserável
refletida em meus olhos ínfimos 
naquele dia sombrio.
Continuei andando
deixando para trás o que eu não poderia conceituar em um indistinguível e único vocábulo
 quando ouvi o som provisório de meus próprios passos
em uma avenida cheia de movimentos bruscos e ruídos violentos
a perplexidade do vazio mundano 
ausente de sons
fez-me distrair
e não vi quando se aproximavam...
jogaram algumas palavras soltas aqui e ali
e meus olhos continuavam em direção ao chão
até serem sugados por aquele desconhecido alguém.
Que olhos escuros os meus olhavam agora!
O momento durou muito
Era mais do que eu tinha para mim
E por isso, parada ali mesmo, fui embora. Roubada.
Meus restos caminhavam 
mais uma vez
pela calçada. 
E durante a espera no ponto de ônibus 
tentei sorver tudo que inclusive não via
no ar impuro da cidade grande
O barulho do automóvel chega
E com ele o seu ocupamento no espaço. 
De modo irresoluto, subo os degraus trapaceiros que dizem se mover
e nada acontece enquanto ignoro outros olhares observadores
Então a apatia na bolsa
aperto o botão de pedir parada
mas esqueço a minha mãe nele 
é então que levo um susto:
uma mão desconhecida segura a minha.
Do nada a mão veio, e desapareceu.
Uma mão bronzeada
amorenada
escura
que me interceptou despreparada... Como pode alguém me alcançar de modo tão inóspito? Ou pior, como posso eu, ser tão vulnerável?!
Já sem forças, desço do ônibus com meus olhos turvos
e permaneço. Mas não sei se me desfaço. 

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